terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O outro lado

Eu estava passando perto de uma loja de bolsas naquele dia. Não sei o motivo, mas do nada mudei minha rota. Nunca passo ali perto. Não tenho nenhum problema, contudo, felizmente ou infelizmente, sou meio metódico em meu percurso. Devia ser diferente. Eu que sou tão afeito a quebrar regras, a ousar, a tentar o novo, tenho ilhas de conservadorismo dentro de mim.

Uma senhora, por volta do seus 50 anos, me aborda na rua. Pensei que era para entregar alguma propaganda de plano dental ou algum folheto de proselitismo religioso. Ela, calma, me perguntou o que eu estava achando do dia. Era por volta de 16:30, estava saindo do trabalho e queria, mais que tudo nesse mundo, pegar o ônibus, que nesse horário é sempre lotado, e ir para minha casa.

Respondi que estava cansado, um pouco estressado, suado e queria logo chegar em casa, preparar algo para comer e depois ir para a academia. A todo tempo eu ficava olhando para o início da avenida com a expectativa do coletivo chegar.

Ela me disse que perguntou o que eu estava achando do dia e não de como eu estava. Meio que não entendi direito. Ela apontou o céu. Estava perto do ocaso. Lindo. Eu falei que mal tinha reparado no espaço ao meu redor. Acordei cedo. Peguei um transporte hiper lotado pela manhã, tinha dado aula pela manhã, almoçado em um restaurante popular, dado aula a tarde e que minhas observações daquele dia estavam apenas relacionadas ao trabalho e meu desejo de chegar em casa. Logo em seguida ela foi embora. Nem deu tempo direito para eu dizer até logo.

Nunca a tinha visto. Acho que dificilmente tornarei a vê-la novamente. Aquela pergunta dela ficou martelando em minha cabeça. Parei e fiquei olhando o céu, a praça perto do mercado, as plantas naquele ambiente, vendedores nas lojas, pessoas indo e vindo em todas as direções. De repente, aquilo que muito me exasperava começou a ter sentido para mim. Meu acordar cedo, minhas aulas ministradas, meu almoço simples, tudo aquilo começou a fazer parte de uma sinfonia tocada na orquestra da vida. Cada peça encaixa perfeitamente no quebra cabeça do universo.

Vez em quando, nos instantes que o cotidiano parece querer me sufocar eu paro e olho ao meu redor. Não para ver quem sofre mais do que eu. Tem gente que se sente agradecido por não ser tão pobre ou miserável quanto o outro. Olho ao meu redor para sentir o movimento da vida. Olho para sentir a minha dependência das outras pessoas. Somos parte de um todo. Preciso do gari que varre a rua tanto quanto do médico que me atende e trata de algum problema de saúde meu.

Agradeço muito aquela mulher que durante mais ou menos dois minutos me fez ver o outro lado da coisa. Sempre tem o outro lado. Uma vez um amigo me disse que um fio positivo e o negativo juntos geram a energia que move a vida de hoje. Nada é totalmente bom ou totalmente ruim. Cara e coroa constituem a mesma moeda. 

sábado, 24 de dezembro de 2016

Acendendo velas

Senti que algo não estava bem assim que acordei. Eu tinha bebido na noite anterior e tinha esquecido a forma como havia chegado em casa. Essa foi a segunda vez que o álcool me fez esquecer detalhes importantes de fatos vivenciados durante momentos de farra.

Eu prometi que ia beber sem tocar no nome interdito. Cumpri a palavra. Meus amigos já estão cansados de ouvir meus desabafos e choros durante nossos instantes juntos. É sempre a mesma história. Começamos a ingerir cerveja ou qualquer outra bebida e daqui a pouco começo meu rosário de lamentos.

Mas naquela noite não rezei a ladainha das decepções. Até paquerei naquele bar. Conversei muito. Ri bastante. E cada vez fui bebendo e achando pouco o teor de álcool naquelas bebidas. Pedi para aumentar. Foi aí que me dei mal.

Pouco antes de sairmos eu já estava naquele estado bem ébrio. Lembro vagamente de um amigo ter pedido um uber e me colocado nele. Lembro que saltei em frente a meu apartamento. Só.

Não sei como fui deitar. Não sei como tirei a roupa. Não sei como fiz para vomitar e depois dormir. A sensação de doença e de algo errado perturbava minha mente assim que vi a luz do sol invadir meu quarto. Mas eu não conseguia saber o motivo.

Me levantei com uma baita dor de cabeça. Fui procurar um comprimido. Encontrei com um pouco de dificuldade diante da bagunça do meu quarto. Tomei com água e, em seguida, fui ao banheiro. Quase vomitei novamente diante do chão seco com o vômito da noite anterior.

Aos poucos fui tentando reconstruir a noite passada. Conversei pelo whatsapp com os amigos que tinha saído comigo. Aos poucos eles foram contando os fatos que vivenciei e a memória, com muito vagar, foi chegando.

Fiquei mal. Eu sabia que tinha algo errado. Eu tinha agendado um compromisso para pouco depois da hora que saí daquele bar. Ia ter um encontro. Tinha criado expectativas boas em relação a ele. Mas quando tinha chegado ao bar, devido minha promessa de não ficar contando casos do passado e bebendo, acabei esquecendo também do presente que se abria para mim.

Quando dei pela mancada que eu tinha cometido, corri e fui tentar falar com a outra pessoa. Eu já tinha sido bloqueado, contudo havia uma frase emblemática no aplicativo de mensagens: “Criei expectativas diante de tudo tínhamos conversado nesses últimos dias. Você foi igual aos outros. Mexeu comigo e do nada sumiu. Adeus.”

A mensagem foi como uma facada dentro de mim. Sangrei. Chorei. Mas não tinha mais nada para fazer. Aceitei a realidade que eu tinha um passarinho quase em minha mão, entretanto, eu, sem querer, espantei.

O dia continuou mal. Esqueci que tinha coisas para resolver na escola. Não me lembrei do prazo para encaminhar alguns documentos. Fiquei tão fora da realidade que peguei o ônibus e fui para o interior. Quando cheguei à casa de minha mãe me dei conta que tinha saído de João Pessoa sem qualquer planejamento.


No dia seguinte retornei para a capital. Mas o sentimento de culpa pesava muito em mim. Fiquei dias remoendo aquela mensagem recebida. Apaguei do celular, mas continuava colada na minha mente. O que poderia ter acontecido comigo se eu não tivesse exagerado nas bebidas naquela noite? 

Enquanto escrevo sentado no meu quarto, na sala tem dois casais de amigos trocando afetos e carinhos. Vou acabar isso e voltar lá. Minha vocação para acender velas é incontestável.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Fósseis

Eu a vi a fotos dos dois no instagram. Fiquei morrendo de ciúmes. Não tenho motivos para nutrir esse sentimento. Ora, eu que não quis continuar com algo que eu julgava – talvez erroneamente – não vingar. Meu velho defeito de viver tudo intensamente por uns momentos e depois descartar com a mesma intensidade.

Pago por erros. Desacertos são vários. Escolhas precipitadas marcam minha vida. O pior de tudo é que me arrependo pouco tempo depois. Hoje estive em um shopping e meu maior medo era encontrar ele lá. Sabe aquele olhar de vigilância a todo tempo? Pois estive desse jeito. Só sosseguei quando saí do local e retornei para minha cidade.

O ano que está quase no fim foi marcante para mim. Faltam poucos dias para o ocaso de 2016. Fechei ciclos. Tive dores. Perdas. Fiz tentativas várias de acertos em algumas áreas de minha vida; errei em muitas. Mas afetivamente, como diz a sabedoria do bar, me lasquei.

Uma vez comentei com um amigo que vou tentar virar uma versão de Dilma. Pelo menos a versão que pintam dela. Mulher dura. Bem sucedida profissionalmente, apesar de ter feito um péssimo governo. E viver sem amores. Focar na minha vida profissional, buscar alcançar minhas metas e curtir discretamente a existência.


Escrevo isso escutando pagode. Segundo Ana Carolina, a personalidade do amor é deste estilo musical. Penso no que perdi por ser instável em meus relacionamentos. No fundo Alexandre Pires canta: “preciso de um tempo aqui pra esquecer o que passou”. Talvez só na próxima existência eu consiga destruir esses fósseis - são vários - que carrego na alma.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A velha repetição

Comprei umas cervejas. Assei uns pedaços de peito de frango. Acessei o youtube. Um prato pronto para que minha memória afetiva pudesse ser acionada instantaneamente. Fazia tempo que ela estava adormecida, guardada, a meu ver, sepultada. Mas não. Ledo engano. A memória é viva, muito viva.

De acordo com as cervejas que eu estava tomando, vez ou outra petiscando, e com as músicas que estava ouvindo, sentimentos foram renascendo. Comecei a avaliar os últimos acontecimentos de minha vida. O ano de 2016 não foi um ano fácil. Carrego marcas na minha alma. Carrego feridas em meus sentimentos. Uma parte de mim foi embora (escrevo sobre isso depois).

Às vezes me pergunto se existem tantas pessoas que vivem amarradas pela linha tênue da memória. Converso com alguns amigos e amigas. Todos e todas parecem lidar muito bem com ela. Eu não consigo. Sabe aquela parada que o tempo faz esquecer? Comigo não funciona. O tempo, pelo contrário, amadurece as experiências, torna-as mais intensas.

Acho que preciso, aliás, acho não, tenho certeza que preciso faz algum tipo de tratamento psicológico. Ou psicanalítico. Muitas coisas em minha vida ficam presas a acontecimentos pretéritos. Isso, em vários momentos, já atrapalhou várias coisas, sabe? Até relacionamentos já perdi por continuar apegado a algo que já morreu, mas insiste em interferir na minha vida.

Penso em acender um cigarro, mas reflito que é melhor não. Nas últimas  vezes que fumei tive crise alérgica. Não posso mais contar com o cigarro, que era meu companheiro de sofrimento.  Ainda bem que o álcool não me prejudica, por enquanto.


Um amigo acabou de me chamar para ir a uma boate. Não tenho clima, respondo a ele. Talvez eu devesse ir. Mas prefiro ficar no meu apartamento, com a cerveja que resta, comendo os últimos pedaços de peito de frango, ouvindo mais músicas que são piores que flechas, porque elas atingem a minha alma.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Repete-se


Hoje ele confessou o que há um tempo tenho desconfiado. Mas eu merecia isso. Eu fiz isso antes. Fiz quando a gente tava ficando, quando a gente não considerava um namoro, quando a gente nem sabia o que a gente queria direito.

Aquela conversa, na pizzaria, no começo de abril, foi tensa. Resquício de quem vive apegado a um passado morto que insiste em ressuscitar sem querer sair do túmulo. Uma morte não finda. Uma vida sem vida.

Aquele fim de semana tinha sido tenso para mim. De repente eu soube que o outro, o ídolo, estaria nas redondezas. Tremi nas bases. Deixei de ir para lugares que eu achava que podia me esbarrar com ele. Tudo vão.

Saí na tarde de sábado para tentar espairecer. Foi pior. Deixei-me seduzir pelo álcool. Fui a lugares que nunca deveria ter conhecido. Fiz coisas que, sem dúvidas, se tivesse sóbrio jamais teria feito.

Encontrei duas ex - paixões. Tá vendo como esses mortos sempre me procuram? Fugi de um que estava distante, apareceram dois que estavam perto. Por que tem que ser assim? Talvez não tenha. Talvez eu goste desse sadomasoquismo amoroso.

Não aguentei muito naquele espaço. Minha vibe era outra. De repente todo mundo junto, acompanhado e eu naquela solidão provocada. Não aguentei e mandei um áudio no whatsapp para ele. Ele que tava numa história até legal comigo, apesar de complicada.

Eu queria está junto. Eu queria ter alguém para mim. Eu tinha alguém que era meu e não meu ao mesmo tempo. Desejo de posse. Ser proprietário. Algo tão egoísta, tão machista, tão andocentrico. Meus pecados. Confesso-os. Apesar de saber que não terei absolvição.

Na pizzaria o silêncio falava tão alto que explodia dentro de mim, dentro de nós dois. Revi os áudios enviados na noite anterior. Percebi que tinha extrapolado os limites. Rompemos ali. Um rompimento implícito.

A saudade explodiu dias depois. Não aguentei. Postei uma foto no instagram de uma frase escrita por ele e que tava colada no meu guarda-roupa. Teve o efeito que eu queria. O contato foi reatado.

Saímos várias vezes até eu conseguir aquilo que desejava. Algo oficial. O dia foi o dia dos namorados. Pobre de mim, sempre querendo posse, sempre pensando em comemorar esse dia com um garoto, sempre desejando satisfazer meus interesses egocêntricos.

Depois de enrolações eu consigo meu intento. Pensei que ia construir algo definitivo com ele. Mas depois daquele dia, que inclusive eu havia dado um presente sem receber nada em troca, só nos encontramos uma vez. Estranho, né?

O tinder, ah o tinder! Através desse aplicativo nos conhecemos. Eu sempre desconfiei de quem namora e usa ele. Quando um amigo virtual me mostrou uma combinação, eu estranhei e o ciúme começou a me corroer.

E nossas conversas rareavam no whatsapp. Às vezes eu ligava, mas ele tava jogando. Afinal, jogar é melhor do que falar com o namorado, né? Que saudade daqueles outros tempos que não vivi, quem eram ruins, mas que me deixam jogar a culpa dos meus fracassos nesses avanços tecnológicos tão distantes de minha adolescência numa cidade do interior paraibano.

Hoje não aguentei. Eu tava desconfiado de algo estranho. Puxei papo. Pouco a pouco ele se abre. Ainda receoso. Confessa o que perturbava meus pensamentos. Dia 12 oficializamos o namoro. Entre o dia dos namorados e ontem, 29 de junho, ele ficou com alguém.

Joga a culpa em mim. Diz que já fiz. E já fiz mesmo. E confessei antes que ele desconfiasse de algo. Mas naquele tempo nossa história tava truncada. Não quero me justificar, caramba! Mas, porra, podia ter ficado antes do dia 12, quando a gente tava retomando, nera?

Um baque. O mundo caiu. Meu egoísmo insiste em não compreender as justificativas. Ah, egoísmo, machismo, patriarcalismo, qualquer outro nome que venha tentar compreender o sentimento de posse roubada do outro, pode me descrever nesse momento.


Não sou santo. Nunca fui. Queria ser, mas não consigo. Mas macular um ninho que estava em formação é muito para meu sentimento. Escrever isso é exorcizar o mal que me habita.

29/06/2015

sábado, 10 de maio de 2014

O orgulho dentro de mim

Sou orgulhoso. Acho que todo mundo é. Mas algumas pessoas iluminadas conseguem esconder ou controlar o orgulho. Outros não.

Tem aquele orgulho bom, né? Quando a gente faz um trabalho que gera um resultado bom, por exemplo. Quanto orgulho, quanta satisfação! Algumas vezes, eu fico impressionado comigo mesmo.

Mas não quero falar desse orgulho enquanto sentimento de satisfação ou de reconhecimento. Falo daquele que está ligado a sentimentos menos nobres, ligados ao ego ferido, relacionado a incapacidade das pessoas reconhecer seus erros e voltar atrás. Ah, confesso que tenho isso.

Tive alguns relacionamentos (dois ou três ao longo de meus vinte e sete anos de vida!) que o orgulho falou mais forte do que o afeto que eu nutria. Eu sabia que poderia existir a possibilidade de reatar a relação, mas não quis. Por quê? Puro orgulho.

Voltar atrás não é muito meu forte.

Decisões importantes eu tomei. Algumas me arrependi amargamente. Noites seguidas rolei na cama, lágrimas caíram, mas jamais fui capaz de reconhecer que eu seria capaz de rever alguma decisão tomada, mesmo sabendo que isso evitaria sofrimentos inúteis no futuro.


Mas a gente aprende com o tempo. Gosto daquele lugar comum que diz que a melhor aprendizagem ocorre na escola da vida. Então, tentei rever algo que fiz dias atrás com a cabeça quente. Não sei se vai dá certo. Mas um efeito positivo já gerou em mim: resisti a esse orgulho mesquinho que habita em meu interior, reconheci um erro e voltei atrás. E hoje já sou outra pessoa. Menos orgulhosa. Isso faz toda a diferença. 

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Pai comprou bolachas recheadas

Pai comprou bolachas recheadas. Fazia tempos que, nas compras do mês no supermercado, ele não comprava. Fiquei surpreso quando mãe disse que ele tinha feito isso. Um milagre.

Amo bolachas recheadas. Ou biscoitos recheados como diz na embalagem. Tanto faz. Desde pequeno que sou doido por esse tipo de comida que faz tanto mal a saúde, mas é tão bom pro paladar.

Dias atrás, durante a noite, bateu a vontade de comer biscoitos recheados. Eram nove horas da noite. Peguei a bicicleta. Fui até o outro lado da cidade. Lá tem uma padaria que fica, ou ficava, aberta até tarde. Fui todo animado. Até chuva peguei no meio do caminho. Mas chegando lá, para a tristeza geral da nação, a padaria estava fechada. Que raiva!

Essa vontade repentina que bateu, parecendo até desejo de mulher grávida, se deu em virtude de há alguns meses não ter comprado mais meus biscoitos recheados. Desde que pai cortara, há uns anos, a compra deles, eu é que tinha que desembolsar a aquisição de minhas biscoitos diletos.  Mas na busca para perder alguns quilos, acabei traindo essa relação de amor antiga.

No dia seguinte, fui no supermercado perto de casa e comprei três biscoitos de chocolates. Matei a vontade.

Quando criança eu ansiava pelas compras mensais porque sabia que, além dos gêneros alimentícios e outros produtos essenciais na vida doméstica, viria os biscoitos.

Hoje, depois de anos, quando cheguei na cozinha, mãe disse: teu pai comprou biscoitos recheados.

São 22:49. Acabo de comer uma bolacha recheada de morango. Voltei, por uns instantes, a ser o menino de 15 anos atrás. E torcendo para que próximo mês a boa nova se repita.

domingo, 29 de setembro de 2013

Voltando

Nossa, como fazia tempo que eu não postava nada aqui! O facebook tem reinado soberanamente em minha vida. Passo a maior parte do meu tempo lá. Os grupos de debates, as páginas, comunidades, atualizações dos milhares de amigos virtuais que tenho, tudo isso tem ocupado minha navegação no mundo virtual.

Confesso que esse blog perdeu um pouco de sentido para mim. Muitos textos escritos eram desabafos de um coração amante. Outros tempos. Tempos bons aqueles. Tempos das paixões inebriantes e dos sofrimentos também. Mudei. Todo mundo muda o tempo todo. Cresci. Larguei aquelas ilusões afetivas. Não que eu não possa vir, em um futuro, a ter algum sentimento arrebatador por outra pessoa no futuro, mas não vislumbro isso para mim.

Dias atrás, eu lembrava de quando eu gostava de Luan Santana (risos). Hoje acho hilário lembrar que já fui fã desse cara. Não apenas gostava dele, mas Luan marcou um período importante na minha história sentimental. Ainda hoje, passado tanto tempo, toda vez que escuto, por exemplo, "meteoro da paixão", o passado volta como se eu tivesse acessado um link de um algum site. Imediatamente vem os sorrisos, os cheiros, os medos, os anseios, os desejos...

Cheguei hoje a esse blog devido uma nostalgia que me abateu de repente. Meu computador, há meses, estava sem funcionar. Um amigo veio agora a tarde formatá-lo e ajeitá-lo. Voltou a funcionar normalmente. Quando comecei a mexer nele, fuçando os vários arquivos e pastas, me deparo com as centenas de fotos que tenho. Comecei a ri, deu vontade de chorar, bateu saudade. 

Depois desse momento contemplativo de fotos, fui bater no orkut (risos). Pois é, os meus dois perfis ainda estão na ativa. Parece que o domingo serviu para eu voltar a um tempo que não volta mais, mas que vive na lembrança bem guardado e sempre pronto para vir à tona.

Vou voltar a escrever nesse blog. Os tempos são outros, mas não rompi completamente com as outras temporalidades que experienciei. 

São 20:39

sexta-feira, 8 de março de 2013

8 de março de 2013

O 8 de março chegou. Temos (eu me incluo também já que não precisa ser de determinado gênero ou grupo pra celebrar vitórias ou lutar por avanços dele) muitas conquistas. Mas muito desafios. 

O direito penal brasileiro tem mecanismos legais para enfrentar a violência contra as mulheres, a Constituição diz que homens e mulheres são iguais, ninguém ousa, abertamente, dizer que mulheres são inferiores aos homens... mas na prática, todo mundo sabe, isso é bem diferente. 

A Lei Maria da Penha, por exemplo, não tem sido aplicada de fato. A igualdade constitucional não se realiza, uma vez que, nas mesmas profissões, homens e mulheres não ganham de forma semelhante. 

Além disso, não dá pra comparar uma mulher de classe média alta com uma mulher que mora numa cidade do interior ou numa favela de uma grande cidade. Não dá pra comparar a mulher branca com a negra. A mesma experiência de preconceito e discriminação da mulher lésbica ou trans não é vivenciada pela mulher hétero. A mulher de religião cristã está, socialmente falando, em um patamar muito superior que a mulher de religião afro. 

Temos prefeitas, vereadoras, deputadas, senadoras, uma governadora de estado, ministras, juízas, desembargadoras, presidenta da república, empresárias... Mas também temos muitas mulheres que nem podem sair de casa, que vivem em um sistema patriarcal que as aprisionam, que as silenciam, que impede qualquer manifestação no sentido de romper com a lógica androcêntrica na sociedade. 

Nesse dia 8 de março não é possível louvar, tão somente, as conquistas, mas, acima de tudo, é preciso discutir os desafios para a construção de uma sociedade justa, fraterna e solidária, sem esquecer, também, que a opressão de gênero não pode ser dissociada da opressão sexual, econômica, racial e religiosa.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Os intelectuais que têm algum sentido ético precisam falar sobre a Terra ameaçada. Entrevista especial com Leonardo Boff

“Enquanto houver alguém gritando no mundo, sejam mulheres, afrodescendentes, indígenas, pessoas discriminadas, sempre têm sentido, a partir da fé, falar e atuar de forma libertadora”, defende o teólogo.

Confira a entrevista.


“A Teologia é séria quando toma a sério o testemunho dos invisíveis, dos desprezados, daqueles que ninguém conta. Cada pessoa é única no mundo, tem algo a dizer, a mostrar. Ignorante é aquele que pensa que o povo é ignorante. O povo sabe muito da vida, da sua luta”, afirmou Leonardo Boff em entrevista concedida, pessoalmente, à IHU On-Line.
Para Boff, “nosso desafio não é o de criar cristãos, mas de criar pessoas honestas, humanas, solidárias, compassivas, respeitosas da natureza dos outros. Se conseguirmos isso é o sonho de Jesus realizado”. E continua: “há um dito que diz: onde estão os pobres está Cristo, e onde está Cristo está a Igreja. Só que não é verdade que onde está o pobre está a Igreja. Ela está mais perto do palácio de Herodes do que da gruta de Belém. A Igreja precisa ver qual é o seu lugar na sociedade”.

Leonardo Boff, filósofo, teólogo e escritor é professor emérito de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. É autor de mais de 60 livros nas áreas de teologia, espiritualidade, filosofia, antropologia e mística, entre os quais citamos Ecologia: grito da terra, grito dos pobres (São Paulo: Ática, 1990); São Francisco de Assis. Ternura e vigor (8. ed. Petrópolis: Vozes, 2000); Ética da vida (Rio de Janeiro: Sextante, 2006); e Virtudes para outro mundo possível II: convivência, respeito e tolerância (Petrópolis: Vozes, 2006).
Leonardo Boff é autor do artigo A busca de um ethos planetário publicado nos Cadernos IHU ideias, no. 169.


Confira a entrevista.
IHU On-Line Qual a diferença da Teologia da Libertação das décadas de 1970 e 1980 e hoje, com a globalização neoliberal? Ela é capaz de responder aos desafios contemporâneos?
Leonardo Boff – A Teologia da Libertação parte do grito dos oprimidos, que hoje são os pobres. Até 2008 havia 860 milhões de pobres no mundo e a crise econômica e financeira elevou esse número a um bilhão e 200 milhões. Os gritos viraram um clamor. Enquanto houver alguém gritando no mundo, sejam mulheres, afrodescendentes, indígenas, pessoas discriminadas, sempre têm sentido, a partir da fé, falar e atuar de forma libertadora. Então, é uma teologia permanente, porque, pela condição humana, todos, até os mais ricos e equilibrados, carregam suas cruzes: é o medo da morte, a exposição a acidentes, a perda do filho ou da esposa; não temos uma vida assegurada. A condição humana é assim e deve ser construída a cada dia, com sua angústia e opressão. Nesse sentido, a fé cristã oferece um caminho para a pessoa se liberar, colocando a vida mesmo uma vida que fracassou na palma da mão de Deus, obtendo assim uma libertação espiritual. A mensagem de Jesus é libertadora por isso. E uma teologia que não produz esse efeito humanizador não pode ser chamada herdeira ou que está no legado de Jesus.


IHU On-Line Como compreender que o cristianismo, que nasceu no primeiro mundo, hoje não faça parte deste universo europeu, ou ao menos não tenha tanta relevância entre ele, e se demonstre mais vivo no terceiro mundo?
Leonardo Boff – Primeiro, há um problema de estatística. Mais da metade dos cristãos e católicos vive no terceiro mundo. De fato, é uma religião do terceiro mundo, embora as origens sejam no primeiro. E se falarmos em termos de criatividade, de presença, veremos que a criatividade não está no primeiro mundo, onde temos culturas agônicas, que lentamente estão “descendo a rampa” da vida; são civilizações que não cultivam a esperança porque não veem qual é a esperança para elas. No fundo, conquistaram tudo o que queriam, dominaram o mundo, impuseram suas ideias, suas filosofias, seus valores, sua música, e agora dizem que são infelizes. Isso significa que o ser humano não só tem fome de pão, de bens materiais, mas também tem fome de beleza, de comunicação, de amor, de solidariedade. E esses valores estão presentes principalmente entre os pobres. Se há uma coisa que os pobres guardam é a cultura da solidariedade, a alegria de viver com o pouco que têm. Isso aparece até nas novelas da Globo, como essa chamada Avenida Brasil: onde estão a vida, a solidariedade e a alegria? Não estão na alta burguesia; estão na favela do Divino. Nesses lugares da Ásia, da África, da América Latina, o cristianismo se mostra criativo. Ele se encarna nas culturas locais, e então passa a ter um rosto diferente, músicas e símbolos diferentes. Agora estão aparecendo novos santos e mártires que são nossos. E tem a questão das mulheres daqui também. E não é só o fato de serem mulheres fazendo teologia, porque a mulher americana rica também a faz. Aqui temos a mulher pobre que não quer ingressar no mundo dos ricos, mas quer ser solidária. Então, faz uma teologia feminina diferente. Elas até brigam com as americanas, por exemplo, fazendo a crítica a elas, dizendo que não adianta fazer teologia só para integrar as mulheres, pois estarão apenas contribuindo para engrossar o mundo dos opressores. As latino-americanas pedem solidariedade a elas como mulheres e como oprimidas. Se não for isso, não será uma verdadeira Teologia da Libertação.



IHU On-Line A partir da vivência, na prática da Teologia da Libertação, como o senhor define que deveria ser uma teologia séria?
Leonardo Boff – A Teologia é séria quando ela toma a sério o testemunho dos invisíveis, dos desprezados, daqueles que ninguém conta. Cada pessoa é única no mundo, tem algo a dizer, a mostrar. Ignorante é aquele que pensa que o povo é ignorante. O povo sabe muito da vida, da sua luta. É um saber, como diz Camões, “de experiências feito”. Somos sérios quando damos valor ao que o povo diz, que não são palavras, mas dramas e gritos. Em segundo lugar, é preciso saber formular isso de uma maneira rigorosa e universal, de forma que todos possam entender.

IHU On-Line Quais os limites da Teologia no mundo hoje? Que desafios ela tem a enfrentar no século XXI, considerando a contribuição que pode oferecer à sociedade contemporânea, principalmente à crise ecológica e ambiental?
Leonardo Boff – A primeira tarefa da Teologia e das igrejas é elas assumirem que são cúmplices do mundo a que chegamos hoje. Isso significa que houve algum erro na nossa transmissão da fé, na nossa vivência bíblica, pelo qual não conseguimos evitar a crise ecológica e a crise econômica mundial. Não temos a chave da salvação, somos parte do problema. E com muita humildade, precisamos renunciar a toda a arrogância de que “temos a palavra da revelação e então sabemos”. Nós não sabemos. Temos que nos unir a todos os grupos, começando pelos pobres – que têm sua sabedoria , e depois com o discurso das ciências, das outras igrejas, com todos os discursos que criam sentido. Além disso, é muito importante sentir-se um discurso junto com os demais, não tendo exclusividade, afirmando que “nós temos a revelação; nós temos a chave”, porque, na verdade, não a temos. Quando a Igreja teve essa arrogância e assumiu o poder, foi um fiasco. Governou mal, até 1890 ainda havia pena de morte nos estados do Vaticano, além de cometer grandes erros históricos contra a modernidade e os direitos humanos. Então, ela não pode apresentar títulos de credibilidade. Primeiro, precisa reconhecer que pode aprender no diálogo e que pode dar uma contribuição a partir do que vem do exemplo de Jesus. Nosso desafio não é o de criar cristãos, mas de criar pessoas honestas, humanas, solidárias, compassivas, respeitosas da natureza dos outros. Se conseguirmos isso é o sonho de Jesus realizado.

IHU On-Line Quais as principais ameaças que pesam sobre nosso futuro?
Leonardo Boff – São dois blocos de ameaças. Um vem pela máquina de morte, que é nossa cultura militarista, que criou um tal número de armas nucleares, químicas e biológicas que pode destruir muitas vezes toda a vida do planeta. São armas muito deletérias, que estão em segurança, mas nunca segurança em absoluto. Vimos isso em Chernobyl e Fukushima. Além disso, temos as nanotecnologias. A guerra cibernética pode ser de alta destruição. Trata-se de uma guerra não declarada, de extrema violência e que pune os inocentes. O segundo bloco de ameaças é aquilo que nosso processo industrialista fez nos últimos 300, 400 anos, com a sistemática agressão à Terra, aos seus bens, seus recursos. Chegamos a um ponto em que desestabilizamos totalmente o sistema Terra, e a manifestação disso é o aquecimento global. Para repor o que tiramos da Terra em um ano, ela precisa de um ano e meio. Então, a Terra já está exterminada. Estamos alcançando uma temperatura perto de 2º C e a comunidade científica norte-americana alertou para o fato de que, com a entrada do metano, do degelo das camadas polares e outros fatores, a Terra vai se aquecendo devagar e, de repente, a febre de 37º C pula para 45º C. Com esse aquecimento abrupto, a vida que conhecemos hoje não vai subsistir, nem animal, nem vegetal, nem humana. Como temos tecnologia, podemos criar pequenos oásis refrigerados para grupos de seres humanos que, seguramente, vão invejar quem morreu antes, tão miserável será a vida. Isso pesa sobre a humanidade nos próximos decênios e ninguém acredita nisso, porque vai contra o sistema da acumulação, contra o capitalismo, contra as grandes empresas. Os intelectuais que têm algum sentido ético precisam falar sobre isso.

IHU On-Line Em que situações de nossa sociedade mais se pode ver o Cristo Crucificado?
Leonardo Boff – Há um velho dito da tradição cristã que diz: onde está o pobre, aí está Cristo. Hoje temos que olhar em cada cidade do terceiro mundo, os grandes cinturões de miséria, as favelas. O cristão que toma a sério a percepção de que Cristo está onde o pobre está tem que visitá-lo. Não basta identificar que lá tem uma favela. É preciso ir até lá, conversar com as pessoas, ver como é possível ajudá-las a se organizar melhor. Há outro dito que diz: onde estão os pobres está Cristo, e onde está Cristo está a Igreja. Só que não é verdade que onde está o pobre está a Igreja. Ela está mais perto do palácio de Herodes do que da gruta de Belém. A Igreja precisa ver qual é o seu lugar na sociedade.

IHU On-Line
Em que sentido o capitalismo pode ser apontado como anticristão?
Leonardo Boff – Em primeiro lugar, o capitalismo é antivida. Ele assassina as vidas humanas para acumular. Para que alguns tenham qualidade de vida, muitos devem ter péssima qualidade de vida. E isso é injusto. E tudo o que vai contra a vida acaba sendo contra aquele que disse: “Eu vim trazer vida e vida em abundância”. Por isso é anticristão. E isso custou muito aos cristãos reconhecerem, porque as igrejas se instalaram muito bem dentro do sistema capitalista. A Igreja teve dificuldade de condenar, pois o capitalismo não nega a Igreja, nem a religião. Pelo contrário, defende a Igreja e a moral. Só que, na prática, nega tudo isso. E essa é a grande ilusão da Igreja, pois o capitalismo passa por cima de todo mundo, sem solidariedade. Nele, só o forte ganha.

IHU On-Line Baseado em que o senhor afirma que os Estados Unidos é o grande terrorista mundial?
Leonardo Boff – Na prática ele é o grande terrorista porque, na América Latina, apoiou todas as ditaduras e participou ativamente de atentados, sequestros de pessoas, fornecendo informações. E continua com essa estratégia, que é a estratégia do império. Onde há uma oposição, ele vai e destrói. Só me admiro que não conseguiu eliminar ainda Hugo Chávez, na Venezuela, nem Fidel Castro, mesmo tentando por 17 vezes, sem resultado. Os Estados Unidos sempre usa a violência militar para se impor. E faz isso em todas as partes, como fez na Líbia, por exemplo, com os aviões não pilotados. Acredito que assim que passar as eleições fará uma intervenção na Síria com aviões não pilotados também.

IHU On-Line – Independentemente se Obama fica ou não?

Leonardo Boff – Independentemente. Até o próprio Obama. Porque eles não vão segurar Israel e também não vão liquidar com o Irã. Então, a arma não é a diplomacia e a busca de caminhos de paz, mas a arma da submissão. E eles são fortes, hoje, não na economia – pois a China é mais , nem na tecnologia – o Japão e outros países são mais ; eles só têm o domínio militar do mundo, com a possibilidade de matar a todos. Em nome disso, submetem todo o mundo. Não há ninguém que se oponha ao império, a não ser Venezuela, Cuba e Coreia do Norte. Todos os demais, inclusive o Brasil, fazem inclinação aos Estados Unidos. É um império cujo imperador é afro-americano, mas com a mesma perversidade de Bush e outros, porque o projeto não mudou.

IHU On-Line O senhor disse que reconhecer a Igreja de Roma como a única verdadeira é um erro teológico. Por quê?
Leonardo Boff – É um erro teológico porque supõe o conceito reducionista de Deus, como se Ele dissesse: “Esses são meus filhos e aqueles não são; essas são minhas criaturas queridas e aquelas são filhos abandonados”. Isso não existe para Deus. Todos nasceram do seu coração. Deus acredita em todos os seres humanos. Todos são filhos e filhas, não só os batizados, que por acaso nasceram no Ocidente. Então, uma Igreja que não faz isso se opõe a Deus.
(Por Graziela Wolfart. Foto de Wagner Altes)

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