O 8 de março chegou. Temos (eu me incluo também já que não precisa ser de determinado gênero ou grupo pra celebrar vitórias ou lutar por avanços dele) muitas conquistas. Mas muito desafios.
O direito penal brasileiro tem mecanismos legais para enfrentar a violência contra as mulheres, a Constituição diz que homens e mulheres são iguais, ninguém ousa, abertamente, dizer que mulheres são inferiores aos homens... mas na prática, todo mundo sabe, isso é bem diferente.
A Lei Maria da Penha, por exemplo, não tem sido aplicada de fato. A igualdade constitucional não se realiza, uma vez que, nas mesmas profissões, homens e mulheres não ganham de forma semelhante.
Além disso, não dá pra comparar uma mulher de classe média alta com uma mulher que mora numa cidade do interior ou numa favela de uma grande cidade. Não dá pra comparar a mulher branca com a negra. A mesma experiência de preconceito e discriminação da mulher lésbica ou trans não é vivenciada pela mulher hétero. A mulher de religião cristã está, socialmente falando, em um patamar muito superior que a mulher de religião afro.
Temos prefeitas, vereadoras, deputadas, senadoras, uma governadora de estado, ministras, juízas, desembargadoras, presidenta da república, empresárias... Mas também temos muitas mulheres que nem podem sair de casa, que vivem em um sistema patriarcal que as aprisionam, que as silenciam, que impede qualquer manifestação no sentido de romper com a lógica androcêntrica na sociedade.
Nesse dia 8 de março não é possível louvar, tão somente, as conquistas, mas, acima de tudo, é preciso discutir os desafios para a construção de uma sociedade justa, fraterna e solidária, sem esquecer, também, que a opressão de gênero não pode ser dissociada da opressão sexual, econômica, racial e religiosa.
sexta-feira, 8 de março de 2013
terça-feira, 20 de novembro de 2012
Os intelectuais que têm algum sentido ético precisam falar sobre a Terra ameaçada. Entrevista especial com Leonardo Boff
“Enquanto houver alguém gritando no mundo, sejam mulheres,
afrodescendentes, indígenas, pessoas discriminadas, sempre têm sentido, a
partir da fé, falar e atuar de forma libertadora”, defende o teólogo.
Confira a entrevista.
“A
Teologia é séria quando toma a sério o testemunho dos invisíveis, dos
desprezados, daqueles que ninguém conta. Cada pessoa é única no mundo,
tem algo a dizer, a mostrar. Ignorante é aquele que pensa que o povo é
ignorante. O povo sabe muito da vida, da sua luta”, afirmou Leonardo Boff em entrevista concedida, pessoalmente, à IHU On-Line.
Para Boff, “nosso desafio não é o de criar cristãos, mas de criar pessoas honestas, humanas, solidárias, compassivas, respeitosas da natureza dos outros. Se conseguirmos isso é o sonho de Jesus realizado”. E continua: “há um dito que diz: onde estão os pobres está Cristo, e onde está Cristo está a Igreja. Só que não é verdade que onde está o pobre está a Igreja. Ela está mais perto do palácio de Herodes do que da gruta de Belém. A Igreja precisa ver qual é o seu lugar na sociedade”.
Leonardo Boff, filósofo, teólogo e escritor é professor emérito de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. É autor de mais de 60 livros nas áreas de teologia, espiritualidade, filosofia, antropologia e mística, entre os quais citamos Ecologia: grito da terra, grito dos pobres (São Paulo: Ática, 1990); São Francisco de Assis. Ternura e vigor (8. ed. Petrópolis: Vozes, 2000); Ética da vida (Rio de Janeiro: Sextante, 2006); e Virtudes para outro mundo possível II: convivência, respeito e tolerância (Petrópolis: Vozes, 2006).
Leonardo Boff é autor do artigo A busca de um ethos planetário publicado nos Cadernos IHU ideias, no. 169.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Qual a diferença da Teologia da Libertação das décadas de 1970 e 1980 e hoje, com a globalização neoliberal? Ela é capaz de responder aos desafios contemporâneos?
Leonardo Boff – A Teologia da Libertação parte do grito dos oprimidos, que hoje são os pobres. Até 2008 havia 860 milhões de pobres no mundo e a crise econômica e financeira elevou esse número a um bilhão e 200 milhões. Os gritos viraram um clamor. Enquanto houver alguém gritando no mundo, sejam mulheres, afrodescendentes, indígenas, pessoas discriminadas, sempre têm sentido, a partir da fé, falar e atuar de forma libertadora. Então, é uma teologia permanente, porque, pela condição humana, todos, até os mais ricos e equilibrados, carregam suas cruzes: é o medo da morte, a exposição a acidentes, a perda do filho ou da esposa; não temos uma vida assegurada. A condição humana é assim e deve ser construída a cada dia, com sua angústia e opressão. Nesse sentido, a fé cristã oferece um caminho para a pessoa se liberar, colocando a vida – mesmo uma vida que fracassou – na palma da mão de Deus, obtendo assim uma libertação espiritual. A mensagem de Jesus é libertadora por isso. E uma teologia que não produz esse efeito humanizador não pode ser chamada herdeira ou que está no legado de Jesus.
IHU On-Line – Como compreender que o cristianismo, que nasceu no primeiro mundo, hoje não faça parte deste universo europeu, ou ao menos não tenha tanta relevância entre ele, e se demonstre mais vivo no terceiro mundo?
Leonardo Boff – Primeiro, há um problema de estatística. Mais da metade dos cristãos e católicos vive no terceiro mundo. De fato, é uma religião do terceiro mundo, embora as origens sejam no primeiro. E se falarmos em termos de criatividade, de presença, veremos que a criatividade não está no primeiro mundo, onde temos culturas agônicas, que lentamente estão “descendo a rampa” da vida; são civilizações que não cultivam a esperança porque não veem qual é a esperança para elas. No fundo, conquistaram tudo o que queriam, dominaram o mundo, impuseram suas ideias, suas filosofias, seus valores, sua música, e agora dizem que são infelizes. Isso significa que o ser humano não só tem fome de pão, de bens materiais, mas também tem fome de beleza, de comunicação, de amor, de solidariedade. E esses valores estão presentes principalmente entre os pobres. Se há uma coisa que os pobres guardam é a cultura da solidariedade, a alegria de viver com o pouco que têm. Isso aparece até nas novelas da Globo, como essa chamada Avenida Brasil: onde estão a vida, a solidariedade e a alegria? Não estão na alta burguesia; estão na favela do Divino. Nesses lugares da Ásia, da África, da América Latina, o cristianismo se mostra criativo. Ele se encarna nas culturas locais, e então passa a ter um rosto diferente, músicas e símbolos diferentes. Agora estão aparecendo novos santos e mártires que são nossos. E tem a questão das mulheres daqui também. E não é só o fato de serem mulheres fazendo teologia, porque a mulher americana rica também a faz. Aqui temos a mulher pobre que não quer ingressar no mundo dos ricos, mas quer ser solidária. Então, faz uma teologia feminina diferente. Elas até brigam com as americanas, por exemplo, fazendo a crítica a elas, dizendo que não adianta fazer teologia só para integrar as mulheres, pois estarão apenas contribuindo para engrossar o mundo dos opressores. As latino-americanas pedem solidariedade a elas como mulheres e como oprimidas. Se não for isso, não será uma verdadeira Teologia da Libertação.
IHU On-Line – A partir da vivência, na prática da Teologia da Libertação, como o senhor define que deveria ser uma teologia séria?
Leonardo Boff – A Teologia é séria quando ela toma a sério o testemunho dos invisíveis, dos desprezados, daqueles que ninguém conta. Cada pessoa é única no mundo, tem algo a dizer, a mostrar. Ignorante é aquele que pensa que o povo é ignorante. O povo sabe muito da vida, da sua luta. É um saber, como diz Camões, “de experiências feito”. Somos sérios quando damos valor ao que o povo diz, que não são palavras, mas dramas e gritos. Em segundo lugar, é preciso saber formular isso de uma maneira rigorosa e universal, de forma que todos possam entender.
IHU On-Line – Quais os limites da Teologia no mundo hoje? Que desafios ela tem a enfrentar no século XXI, considerando a contribuição que pode oferecer à sociedade contemporânea, principalmente à crise ecológica e ambiental?
Leonardo Boff – A primeira tarefa da Teologia e das igrejas é elas assumirem que são cúmplices do mundo a que chegamos hoje. Isso significa que houve algum erro na nossa transmissão da fé, na nossa vivência bíblica, pelo qual não conseguimos evitar a crise ecológica e a crise econômica mundial. Não temos a chave da salvação, somos parte do problema. E com muita humildade, precisamos renunciar a toda a arrogância de que “temos a palavra da revelação e então sabemos”. Nós não sabemos. Temos que nos unir a todos os grupos, começando pelos pobres – que têm sua sabedoria –, e depois com o discurso das ciências, das outras igrejas, com todos os discursos que criam sentido. Além disso, é muito importante sentir-se um discurso junto com os demais, não tendo exclusividade, afirmando que “nós temos a revelação; nós temos a chave”, porque, na verdade, não a temos. Quando a Igreja teve essa arrogância e assumiu o poder, foi um fiasco. Governou mal, até 1890 ainda havia pena de morte nos estados do Vaticano, além de cometer grandes erros históricos contra a modernidade e os direitos humanos. Então, ela não pode apresentar títulos de credibilidade. Primeiro, precisa reconhecer que pode aprender no diálogo e que pode dar uma contribuição a partir do que vem do exemplo de Jesus. Nosso desafio não é o de criar cristãos, mas de criar pessoas honestas, humanas, solidárias, compassivas, respeitosas da natureza dos outros. Se conseguirmos isso é o sonho de Jesus realizado.
IHU On-Line – Quais as principais ameaças que pesam sobre nosso futuro?
Leonardo Boff –
São dois blocos de ameaças. Um vem pela máquina de morte, que é nossa
cultura militarista, que criou um tal número de armas nucleares,
químicas e biológicas que pode destruir muitas vezes toda a vida do
planeta. São armas muito deletérias, que estão em segurança, mas nunca
segurança em absoluto. Vimos isso em Chernobyl e Fukushima.
Além disso, temos as nanotecnologias. A guerra cibernética pode ser de
alta destruição. Trata-se de uma guerra não declarada, de extrema
violência e que pune os inocentes. O segundo bloco de ameaças é aquilo
que nosso processo industrialista fez nos últimos 300, 400 anos, com a
sistemática agressão à Terra, aos seus bens, seus recursos. Chegamos a
um ponto em que desestabilizamos totalmente o sistema Terra, e a
manifestação disso é o aquecimento global. Para repor o que tiramos da
Terra em um ano, ela precisa de um ano e meio. Então, a Terra já está
exterminada. Estamos alcançando uma temperatura perto de 2º C e a
comunidade científica norte-americana alertou para o fato de que, com a
entrada do metano, do degelo das camadas polares e outros fatores, a
Terra vai se aquecendo devagar e, de repente, a febre de 37º C pula para
45º C. Com esse aquecimento abrupto, a vida que conhecemos hoje não vai
subsistir, nem animal, nem vegetal, nem humana. Como temos tecnologia,
podemos criar pequenos oásis refrigerados para grupos de seres humanos
que, seguramente, vão invejar quem morreu antes, tão miserável será a
vida. Isso pesa sobre a humanidade nos próximos decênios e ninguém
acredita nisso, porque vai contra o sistema da acumulação, contra o
capitalismo, contra as grandes empresas. Os intelectuais que têm algum
sentido ético precisam falar sobre isso.
IHU On-Line – Em que situações de nossa sociedade mais se pode ver o Cristo Crucificado?
Leonardo Boff – Há um velho dito da tradição cristã que diz: onde está o pobre, aí está Cristo. Hoje temos que olhar em cada cidade do terceiro mundo, os grandes cinturões de miséria, as favelas. O cristão que toma a sério a percepção de que Cristo está onde o pobre está tem que visitá-lo. Não basta identificar que lá tem uma favela. É preciso ir até lá, conversar com as pessoas, ver como é possível ajudá-las a se organizar melhor. Há outro dito que diz: onde estão os pobres está Cristo, e onde está Cristo está a Igreja. Só que não é verdade que onde está o pobre está a Igreja. Ela está mais perto do palácio de Herodes do que da gruta de Belém. A Igreja precisa ver qual é o seu lugar na sociedade.
IHU On-Line – Em que sentido o capitalismo pode ser apontado como anticristão?
Leonardo Boff – Em primeiro lugar, o capitalismo é antivida. Ele assassina as vidas humanas para acumular. Para que alguns tenham qualidade de vida, muitos devem ter péssima qualidade de vida. E isso é injusto. E tudo o que vai contra a vida acaba sendo contra aquele que disse: “Eu vim trazer vida e vida em abundância”. Por isso é anticristão. E isso custou muito aos cristãos reconhecerem, porque as igrejas se instalaram muito bem dentro do sistema capitalista. A Igreja teve dificuldade de condenar, pois o capitalismo não nega a Igreja, nem a religião. Pelo contrário, defende a Igreja e a moral. Só que, na prática, nega tudo isso. E essa é a grande ilusão da Igreja, pois o capitalismo passa por cima de todo mundo, sem solidariedade. Nele, só o forte ganha.
IHU On-Line – Baseado em que o senhor afirma que os Estados Unidos é o grande terrorista mundial?
Leonardo Boff – Na prática ele é o grande terrorista porque, na América Latina, apoiou todas as ditaduras e participou ativamente de atentados, sequestros de pessoas, fornecendo informações. E continua com essa estratégia, que é a estratégia do império. Onde há uma oposição, ele vai e destrói. Só me admiro que não conseguiu eliminar ainda Hugo Chávez, na Venezuela, nem Fidel Castro, mesmo tentando por 17 vezes, sem resultado. Os Estados Unidos sempre usa a violência militar para se impor. E faz isso em todas as partes, como fez na Líbia, por exemplo, com os aviões não pilotados. Acredito que assim que passar as eleições fará uma intervenção na Síria com aviões não pilotados também.
IHU On-Line – Independentemente se Obama fica ou não?
Leonardo Boff – Independentemente. Até o próprio Obama. Porque eles não vão segurar Israel e também não vão liquidar com o Irã. Então, a arma não é a diplomacia e a busca de caminhos de paz, mas a arma da submissão. E eles são fortes, hoje, não na economia – pois a China é mais –, nem na tecnologia – o Japão e outros países são mais –; eles só têm o domínio militar do mundo, com a possibilidade de matar a todos. Em nome disso, submetem todo o mundo. Não há ninguém que se oponha ao império, a não ser Venezuela, Cuba e Coreia do Norte. Todos os demais, inclusive o Brasil, fazem inclinação aos Estados Unidos. É um império cujo imperador é afro-americano, mas com a mesma perversidade de Bush e outros, porque o projeto não mudou.
IHU On-Line – O senhor disse que reconhecer a Igreja de Roma como a única verdadeira é um erro teológico. Por quê?
Leonardo Boff – É um erro teológico porque supõe o conceito reducionista de Deus, como se Ele dissesse: “Esses são meus filhos e aqueles não são; essas são minhas criaturas queridas e aquelas são filhos abandonados”. Isso não existe para Deus. Todos nasceram do seu coração. Deus acredita em todos os seres humanos. Todos são filhos e filhas, não só os batizados, que por acaso nasceram no Ocidente. Então, uma Igreja que não faz isso se opõe a Deus.
Confira a entrevista.
Para Boff, “nosso desafio não é o de criar cristãos, mas de criar pessoas honestas, humanas, solidárias, compassivas, respeitosas da natureza dos outros. Se conseguirmos isso é o sonho de Jesus realizado”. E continua: “há um dito que diz: onde estão os pobres está Cristo, e onde está Cristo está a Igreja. Só que não é verdade que onde está o pobre está a Igreja. Ela está mais perto do palácio de Herodes do que da gruta de Belém. A Igreja precisa ver qual é o seu lugar na sociedade”.
Leonardo Boff, filósofo, teólogo e escritor é professor emérito de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. É autor de mais de 60 livros nas áreas de teologia, espiritualidade, filosofia, antropologia e mística, entre os quais citamos Ecologia: grito da terra, grito dos pobres (São Paulo: Ática, 1990); São Francisco de Assis. Ternura e vigor (8. ed. Petrópolis: Vozes, 2000); Ética da vida (Rio de Janeiro: Sextante, 2006); e Virtudes para outro mundo possível II: convivência, respeito e tolerância (Petrópolis: Vozes, 2006).
Leonardo Boff é autor do artigo A busca de um ethos planetário publicado nos Cadernos IHU ideias, no. 169.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Qual a diferença da Teologia da Libertação das décadas de 1970 e 1980 e hoje, com a globalização neoliberal? Ela é capaz de responder aos desafios contemporâneos?
Leonardo Boff – A Teologia da Libertação parte do grito dos oprimidos, que hoje são os pobres. Até 2008 havia 860 milhões de pobres no mundo e a crise econômica e financeira elevou esse número a um bilhão e 200 milhões. Os gritos viraram um clamor. Enquanto houver alguém gritando no mundo, sejam mulheres, afrodescendentes, indígenas, pessoas discriminadas, sempre têm sentido, a partir da fé, falar e atuar de forma libertadora. Então, é uma teologia permanente, porque, pela condição humana, todos, até os mais ricos e equilibrados, carregam suas cruzes: é o medo da morte, a exposição a acidentes, a perda do filho ou da esposa; não temos uma vida assegurada. A condição humana é assim e deve ser construída a cada dia, com sua angústia e opressão. Nesse sentido, a fé cristã oferece um caminho para a pessoa se liberar, colocando a vida – mesmo uma vida que fracassou – na palma da mão de Deus, obtendo assim uma libertação espiritual. A mensagem de Jesus é libertadora por isso. E uma teologia que não produz esse efeito humanizador não pode ser chamada herdeira ou que está no legado de Jesus.
IHU On-Line – Como compreender que o cristianismo, que nasceu no primeiro mundo, hoje não faça parte deste universo europeu, ou ao menos não tenha tanta relevância entre ele, e se demonstre mais vivo no terceiro mundo?
Leonardo Boff – Primeiro, há um problema de estatística. Mais da metade dos cristãos e católicos vive no terceiro mundo. De fato, é uma religião do terceiro mundo, embora as origens sejam no primeiro. E se falarmos em termos de criatividade, de presença, veremos que a criatividade não está no primeiro mundo, onde temos culturas agônicas, que lentamente estão “descendo a rampa” da vida; são civilizações que não cultivam a esperança porque não veem qual é a esperança para elas. No fundo, conquistaram tudo o que queriam, dominaram o mundo, impuseram suas ideias, suas filosofias, seus valores, sua música, e agora dizem que são infelizes. Isso significa que o ser humano não só tem fome de pão, de bens materiais, mas também tem fome de beleza, de comunicação, de amor, de solidariedade. E esses valores estão presentes principalmente entre os pobres. Se há uma coisa que os pobres guardam é a cultura da solidariedade, a alegria de viver com o pouco que têm. Isso aparece até nas novelas da Globo, como essa chamada Avenida Brasil: onde estão a vida, a solidariedade e a alegria? Não estão na alta burguesia; estão na favela do Divino. Nesses lugares da Ásia, da África, da América Latina, o cristianismo se mostra criativo. Ele se encarna nas culturas locais, e então passa a ter um rosto diferente, músicas e símbolos diferentes. Agora estão aparecendo novos santos e mártires que são nossos. E tem a questão das mulheres daqui também. E não é só o fato de serem mulheres fazendo teologia, porque a mulher americana rica também a faz. Aqui temos a mulher pobre que não quer ingressar no mundo dos ricos, mas quer ser solidária. Então, faz uma teologia feminina diferente. Elas até brigam com as americanas, por exemplo, fazendo a crítica a elas, dizendo que não adianta fazer teologia só para integrar as mulheres, pois estarão apenas contribuindo para engrossar o mundo dos opressores. As latino-americanas pedem solidariedade a elas como mulheres e como oprimidas. Se não for isso, não será uma verdadeira Teologia da Libertação.
IHU On-Line – A partir da vivência, na prática da Teologia da Libertação, como o senhor define que deveria ser uma teologia séria?
Leonardo Boff – A Teologia é séria quando ela toma a sério o testemunho dos invisíveis, dos desprezados, daqueles que ninguém conta. Cada pessoa é única no mundo, tem algo a dizer, a mostrar. Ignorante é aquele que pensa que o povo é ignorante. O povo sabe muito da vida, da sua luta. É um saber, como diz Camões, “de experiências feito”. Somos sérios quando damos valor ao que o povo diz, que não são palavras, mas dramas e gritos. Em segundo lugar, é preciso saber formular isso de uma maneira rigorosa e universal, de forma que todos possam entender.
IHU On-Line – Quais os limites da Teologia no mundo hoje? Que desafios ela tem a enfrentar no século XXI, considerando a contribuição que pode oferecer à sociedade contemporânea, principalmente à crise ecológica e ambiental?
Leonardo Boff – A primeira tarefa da Teologia e das igrejas é elas assumirem que são cúmplices do mundo a que chegamos hoje. Isso significa que houve algum erro na nossa transmissão da fé, na nossa vivência bíblica, pelo qual não conseguimos evitar a crise ecológica e a crise econômica mundial. Não temos a chave da salvação, somos parte do problema. E com muita humildade, precisamos renunciar a toda a arrogância de que “temos a palavra da revelação e então sabemos”. Nós não sabemos. Temos que nos unir a todos os grupos, começando pelos pobres – que têm sua sabedoria –, e depois com o discurso das ciências, das outras igrejas, com todos os discursos que criam sentido. Além disso, é muito importante sentir-se um discurso junto com os demais, não tendo exclusividade, afirmando que “nós temos a revelação; nós temos a chave”, porque, na verdade, não a temos. Quando a Igreja teve essa arrogância e assumiu o poder, foi um fiasco. Governou mal, até 1890 ainda havia pena de morte nos estados do Vaticano, além de cometer grandes erros históricos contra a modernidade e os direitos humanos. Então, ela não pode apresentar títulos de credibilidade. Primeiro, precisa reconhecer que pode aprender no diálogo e que pode dar uma contribuição a partir do que vem do exemplo de Jesus. Nosso desafio não é o de criar cristãos, mas de criar pessoas honestas, humanas, solidárias, compassivas, respeitosas da natureza dos outros. Se conseguirmos isso é o sonho de Jesus realizado.
IHU On-Line – Quais as principais ameaças que pesam sobre nosso futuro?
IHU On-Line – Em que situações de nossa sociedade mais se pode ver o Cristo Crucificado?
Leonardo Boff – Há um velho dito da tradição cristã que diz: onde está o pobre, aí está Cristo. Hoje temos que olhar em cada cidade do terceiro mundo, os grandes cinturões de miséria, as favelas. O cristão que toma a sério a percepção de que Cristo está onde o pobre está tem que visitá-lo. Não basta identificar que lá tem uma favela. É preciso ir até lá, conversar com as pessoas, ver como é possível ajudá-las a se organizar melhor. Há outro dito que diz: onde estão os pobres está Cristo, e onde está Cristo está a Igreja. Só que não é verdade que onde está o pobre está a Igreja. Ela está mais perto do palácio de Herodes do que da gruta de Belém. A Igreja precisa ver qual é o seu lugar na sociedade.
IHU On-Line – Em que sentido o capitalismo pode ser apontado como anticristão?
Leonardo Boff – Em primeiro lugar, o capitalismo é antivida. Ele assassina as vidas humanas para acumular. Para que alguns tenham qualidade de vida, muitos devem ter péssima qualidade de vida. E isso é injusto. E tudo o que vai contra a vida acaba sendo contra aquele que disse: “Eu vim trazer vida e vida em abundância”. Por isso é anticristão. E isso custou muito aos cristãos reconhecerem, porque as igrejas se instalaram muito bem dentro do sistema capitalista. A Igreja teve dificuldade de condenar, pois o capitalismo não nega a Igreja, nem a religião. Pelo contrário, defende a Igreja e a moral. Só que, na prática, nega tudo isso. E essa é a grande ilusão da Igreja, pois o capitalismo passa por cima de todo mundo, sem solidariedade. Nele, só o forte ganha.
IHU On-Line – Baseado em que o senhor afirma que os Estados Unidos é o grande terrorista mundial?
Leonardo Boff – Na prática ele é o grande terrorista porque, na América Latina, apoiou todas as ditaduras e participou ativamente de atentados, sequestros de pessoas, fornecendo informações. E continua com essa estratégia, que é a estratégia do império. Onde há uma oposição, ele vai e destrói. Só me admiro que não conseguiu eliminar ainda Hugo Chávez, na Venezuela, nem Fidel Castro, mesmo tentando por 17 vezes, sem resultado. Os Estados Unidos sempre usa a violência militar para se impor. E faz isso em todas as partes, como fez na Líbia, por exemplo, com os aviões não pilotados. Acredito que assim que passar as eleições fará uma intervenção na Síria com aviões não pilotados também.
IHU On-Line – Independentemente se Obama fica ou não?
Leonardo Boff – Independentemente. Até o próprio Obama. Porque eles não vão segurar Israel e também não vão liquidar com o Irã. Então, a arma não é a diplomacia e a busca de caminhos de paz, mas a arma da submissão. E eles são fortes, hoje, não na economia – pois a China é mais –, nem na tecnologia – o Japão e outros países são mais –; eles só têm o domínio militar do mundo, com a possibilidade de matar a todos. Em nome disso, submetem todo o mundo. Não há ninguém que se oponha ao império, a não ser Venezuela, Cuba e Coreia do Norte. Todos os demais, inclusive o Brasil, fazem inclinação aos Estados Unidos. É um império cujo imperador é afro-americano, mas com a mesma perversidade de Bush e outros, porque o projeto não mudou.
IHU On-Line – O senhor disse que reconhecer a Igreja de Roma como a única verdadeira é um erro teológico. Por quê?
Leonardo Boff – É um erro teológico porque supõe o conceito reducionista de Deus, como se Ele dissesse: “Esses são meus filhos e aqueles não são; essas são minhas criaturas queridas e aquelas são filhos abandonados”. Isso não existe para Deus. Todos nasceram do seu coração. Deus acredita em todos os seres humanos. Todos são filhos e filhas, não só os batizados, que por acaso nasceram no Ocidente. Então, uma Igreja que não faz isso se opõe a Deus.
(Por Graziela Wolfart. Foto de Wagner Altes)
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Uma nova tentativa
Tá voltando tudo... o sentimento... aquele negócio de ficar leso... de
ouvir música pra sonhar acordado realizando os desejos não possíveis no
momento... aquela coisa de contar os dias pra rever... aquela ansiedade
pra receber um sms ou uma ligação...
A primeira tentativa não deu certo... talvez eu tenha sido meio intransigente... é que depois de um tempo, depois das experiências acumuladas, a gente aprende a não esperar muito de algo não muito certo...
E dessa vez vai dá certo? Não sei...
A primeira tentativa não deu certo... talvez eu tenha sido meio intransigente... é que depois de um tempo, depois das experiências acumuladas, a gente aprende a não esperar muito de algo não muito certo...
E dessa vez vai dá certo? Não sei...
segunda-feira, 25 de junho de 2012
A festa, a saudade e a foto
De novo. Sem esperar. Em um
ambiente que em nada lembraria. Com amigos que nada sabiam. Bebendo bebidas que
nunca foram tomadas por nós. A lembrança, sempre ela, do nada, fez minha noite,
por algum instante, parar.
A música que a banda tocava,
muito agitada, com uma letra nada romântica, também não contribuiu para essa
saudade repentina.
Pessoas passavam, me
cumprimentava, eu fingia, com um sorriso no rosto, que estava bem. Na verdade
eu estava bem. Apenas algo repentino veio quebrar aquele momento festivo.
Quebrar pra mim, claro, porque todos estavam alegres ao meu redor. Eu também,
aparentemente, estava.
Encontrei um amigo. Ele me
entenderia. Eu pensava. Mas ele tava tão alterado pela quantidade de cervejas
tomadas durante o dia que mal prestou atenção no que eu disse. Ou seja, ninguém
ficou sabendo de meu estado emocional interno.
Era quase meia-noite. Decidi
entrar no movimento da festa. Comprei uma bebida quente. O clima não estava
propício para uma cerveja. Queria ficar alterado logo. Tomei a primeira dose de
uma vez. Pedi outra. Mais outra. Lá pela quinta dose, eu comecei a sentir no
corpo, na mente, na minha voz, o efeito das doses fortes.
Começou a tocar uma música que
falava de paixão. Comecei a cantar. Pedi outra dose. Dessa vez sem energético.
Eu já estava muito enérgico. Acompanhei a cantora na outra música, mesmo
distante do palco, eu me sentia como se fosse o artista daquela festa, bem
solto, festivo e cantante. Cantei movido a saudade e a bebida.
A banda termina seu show. Eu
decidi que minha hora de ir embora tinha chegado. Contudo, como vi que estava
não muito seguro do meu corpo, sai com alguns amigos para uma praça. Ficamos
sentados. Eles continuaram bebendo. Eu, para disfarçar minha situação interna
naquele momento, comecei a conversar.
Pessoas bêbadas têm a mania de
falar de chifre. Todo mundo naquela roda já tinha levado ou botado chifre. De
repente, contrariando minha razão, pedi uma dose. Nunca uma tinha bebido uma
dose tão ruim. Desceu ardendo. Rasgando tudo. Só queria que aquela dose
rasgasse as arestas do nosso relacionamento mal resolvido que estavam dentro de
mim e que naquela noite tinha vindo à tona.
Quase quatro horas da manhã. A
bebida tinha acabado. A conversa estava rareando. O cansaço tomava conta de mim
e dos amigos. Eu queria dormir. Fui pra casa. Deitei. Mas levei comigo aquela
lembrança indesejada que me assaltou no início da festa e que foi comigo até o
momento de meu recolhimento. Quando me levantei, não lembrei mais daquela presença
inoportuna em meu coração.
Hoje à tarde, contudo, enquanto
estudava, um amigo ligou pra mim. Do nada, depois que desliguei o celular, vi,
num cantinho do meu quarto uma foto com uma impressão nada boa, mas que me fez
viajar até o momento que a máquina fotográfica tinha eternizado aquele momento
entre nós. E aí, lembrei da festa da noite de sábado. E cai na cama pensando
como teria sido diferente se a vida tivesse sido mais generosa conosco. Adormeci.
Quando me levantei, decidi escrever. Escrever é uma forma de exorcizar o que me
faz mal. Essa lembrança sua, definitivamente, não me faz bem.
terça-feira, 19 de junho de 2012
Quando sou atroz
A criatura humana é capaz das piores atrocidades possíveis. Aliás, acredito, que só os homens e as mulheres são capazes de atrocidades. Os animais agem por instituto, por necessidade natural e irresistível de defender-se ou alimentar-se, mas não comentem qualquer ato gratuito contra outro de sua espécie ou de outra diferente.
Acho
bacana a idéia paulina de que todos pecaram e destituídos estão da glória de
Deus. Para muitos teólogos, sobretudo os calvinistas, nenhum ser humano é bom.
Todos nascem mal por natureza. Todos merecem o inferno. Se não fosse a graça de
Deus, dizem esses pensadores, que escolheu alguns, segundo sua soberana vontade,
para morar no céu, ninguém se salvaria.
Mas
não quero falar em teologia cristã. Quero falar da ruindade humana. Daquilo que
as pessoas fazem de mal as outras pessoas. Algumas porque gostam. Outras por
engano. Outras por pensar que não vão magoar ninguém.
O
pior de tudo é que pessoas que sofreram também são capazes de fazer outras passarem
pelo mesmo sofrimento que levaram tempo para superar. Isso é ruim. Já vi esse
filme várias vezes. O pior é que também já fui protagonista de uma história
parecida. O mesmo motivo que me causou sofrimento, eu, por pensar que não ia
magoar outra pessoa, terminei causando.
A
lição ficou. Depois que o leite foi derramado não há mais nada que fazer. Agora
é seguir em frente e aprender que meu lado bruto, selvagem, desumano até, pelo
menos para meus princípios e valores pessoais, pode aflorar mesmo que eu pense
está tudo de acordo com a normalidade do ambiente que vivo, afinal de conta, o
que fiz não foi reprovado por ninguém, pelo contrário, foi até exaltado.
Não
matei, não roubei, não estuprei ou cometi qualquer outro crime previsto no Código
Penal brasileiro ou em leis extravagantes. Mas algumas coisas são crimes contra
a alma, contra o afeto, contra o sentimento. E pra mim, de acordo com minha
ideologia de vida, isso é crime tipificado na lei do amor.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
Os traficantes do amor
Estamos
cercados por uma indústria que explora a nossa carência
Por IVAN MARTINS
Na minha mesa de trabalho há uma rosa amarela do
dia dos namorados. Entraram aqui um fortão e uma loirinha, vestidos de anjo, e
deixaram o presente em nome de uma marca de cerveja. Achei engraçado, mas,
assim que eles saíram, bateu certa melancolia. Como é fácil banalizar as coisas
que nos comovem. Como é simples transformar em clichê – ou babaquice – os
sentimentos terríveis que definem a nossa humanidade.
Olhe em volta: estamos cercados pela palavra
amor.
Há um milhão de livros com esse título, dez
milhões de músicas com esse refrão, centenas de filmes e um batalhão diário de
novelas que trata do assunto. Pela quantidade de produtos amorosos que nos
oferecem, é inevitável concluir que consumimos mais amor do que cerveja,
chocolate e televisores de tela plana. Talvez um pouco menos que
celulares.
Nosso apetite por amor não tem limites. Nossa
sede de amor jamais acaba. Somos carentes insaciáveis. Sonhamos com o amor
todas as noites. Acordamos encharcados de imagens doloridas. Dentro de nós se
agita um mar de memórias que tem como centro as nossas experiências de afeto.
Velhas, remotíssimas, e recentes. Elas nos movem de forma inconsciente. Somos
filhos, somos irmãos, somos amigos, somos amantes, somos pais e mães. Todos
nós. A cola que liga todas essas situações é o amor.
Começamos a receber amor ainda minúsculos, nos
braços da mãe, e nunca mais paramos. Ele nos constitui emocionalmente, como os
músculos e os ossos nos formam fisicamente. É parte essencial de nós e precisa
ser reposto, realimentado, revivido a cada dia, a cada momento, em um processo
que, a rigor, nunca tem fim.
Um alienígena que chegasse à Terra iria perceber,
em dois minutos, nossa abissal vulnerabilidade. Além de água, alimento, abrigo,
precisamos desesperadamente de amor - em várias formas, em qualquer forma na
verdade. Somos viciados nele. Erguemos nossa vida em torno dele. Do erotismo
violento da adolescência aos sentimentos suaves da velhice, nossa existência é
uma longa experiência amorosa – ou uma busca desesperada, e muitas vezes cega,
muitas vezes infrutífera, pelo amor.
É por isso que me incomoda a banalização
comercial do sentimento. Ela me parece uma covardia, quase uma canalhice. Algo
como oferecer luz a um cego. Diante do amor, somos todos ingênuos, frágeis,
facilmente enganáveis. É simples nos vender qualquer coisa, nos iludir com
qualquer promessa. Estamos, desde crianças, atrás da próxima dose dessa droga –
e, às vezes, tenho a sensação de estarmos cercado de traficantes que não
entregam a mercadoria. Nem poderiam.
Nossos verdadeiros sentimentos são obscuros e
sombrios, quase impossíveis de serem saciados. Eles não cabem nos formatos
pré-moldados da indústria do amor.
Pegue o caso da mulher que matou e destrinchou o marido uns dias atrás.
Havia amor ali. Amor na forma de ciúme. Amor próprio. Amor de mãe que temia ser
separada da filha. Mas não é disso que a marca de cerveja quer falar no dia dos
namorados. A história de Elize Matsunaga precisa de um filme europeu pesado,
triste, não comercial, daqueles que nos expulsam da sala de cinema com a mesma
força com que mergulham dentro de nós.
Diante do tamanho das nossas necessidades, e da
nossa imensa complexidade, a indústria do amor está fadada a nos desapontar.
Ela oferece música para um momento de dor, mas mil músicas são incapazes de nos
consolar quando acabamos de ser abandonados. Ela nos dá lindas histórias de
amor, mas quem pode com elas quando está coberto por um manto intransponível de
medo e tristeza?
O paradoxo do amor público,
industrial, feliz, multiplicado nas redes sociais e nas salas de Multiplex, é
que as nossas experiências realmente importantes são incomunicáveis e
intransferíveis. Apesar do estardalhaço social, estamos sozinhos frente ao
amor. Cabe a cada um de nós encontrá-lo, vivê-lo ou perdê-lo intimamente. É
inevitável gemer sozinho no escuro, cercado de silêncio. O pessoal da rosa
amarela não estará disponível se você precisar deles.
domingo, 10 de junho de 2012
A máscara dele caiu...
Onze horas e
trinta minutos da noite. Dia tranqüilo. Normal. Apenas a chuva, que veio em boa
hora, tinha quebrado a rotina daquela terça.
Ele tenta se
esconder. Tenta fugir. Tenta não parecer o que é. Uma máscara havia sido
colocada, por ele mesmo, em seu rosto. Há tempos que precisava disso, pensa.
Sente mais forte quando não demonstra suas fraquezas, seus sentimentos, quando
não compartilha a dor e a ausência que dilacera a sua alma, frágil alma,
cansada alma.
Mais uma
experiência para sua coleção de fracassos e desilusões amorosas, ele pensa,
durante a penumbra da noite. Apenas algumas luzes fracas de alguns postes de
energia iluminam a cidade, iluminam a sua vida.
Uma leve chuva cai.
De repente sente frio. Um pouco de frio. Mas, pior que aquela sensação causada
pelo clima na cidade dele, é a frio que atormenta e faz tremer seu coração, ele reflete.
Acende um cigarro.
Não é fumante diário. Em alguns momentos de forte pressão emocional, o cigarro
serve para ele pensar e meditar, sobre determinada situação, enquanto fuma. É
como um ritual. Pega a carteira amassada guardada na bolsa escolar, procura o
velho isqueiro de mais de um ano, coloca uma música qualquer em seu celular, vai
para varanda de sua casa e fuma. E pensa. Às vezes, algumas vezes, chora.
Um leve vento
faz a chuva alcançar seu rosto. Por um instante quebra aquele ritual, aquela
quase fuga da realidade, trazendo de volta ao mundo concreto. Ele fica desnorteado.
Percebe que a letra da canção, tocada no seu celular, falar de amor existente,
mas que é negado.
Passa a mão no
rosto. Tira a água de sua fronte. Afasta-se um pouco da varanda para que a
chuva não o molhe mais. O cigarro se apaga. Mas, de repente, uma lágrima verte
de seus olhos. Começa a perceber que as lágrimas mancham a sua máscara. Ele não
tenta ser forte e deixa se envolver por aquele momento. E chora copiosamente.
A máscara caiu.
Alguns pedacinhos ficam pregados no seu rosto. Ele pega o que sobra e joga na
chuva que tinha se intensificado. Nesse momento, se deixa envolver pela água
que cai do céu. A água que cai de seus olhos continua. As duas se misturam. Uma
veio para amenizar à seca que está em sua região. A outra veio para jogar fora
todo o sentimento recolhido de seu coração.
Pouco tempo
depois ele entrar para casa. Vai a seu quarto. Procura uma toalha. Enquanto se
seca, percebe, diante do espelho, que seus olhos estão vermelhos. Fazia tempo que
não chorava daquele jeito. Fazia tempo que não deixava transparecer seu afeto.
Lá a fora a
chuva começa a parar. A terra, amanhã, ficará úmida. Lá dentro as suas lágrimas
também cessaram. Sua alma, amanhã, estará mais tranquila. Deita-se na cama.
Envolve-se com um grosso lençol. Adormece. Quando ele se acordar vai perceber a
serenidade de seu rosto depois de ter libertado aqueles sentimentos reprimidos
que guardava dentro si. Sem máscara. Sendo ele mesmo. E pronto para prosseguir
na busca de sua felicidade.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
O adeus inesperado
Tenho
certeza que vou te encontrar
Não sei o dia e a hora
Mas sei o lugar
Sei que você está bem
Mesmo assim
Isso não me impede de chorar
Não sei o dia e a hora
Mas sei o lugar
Sei que você está bem
Mesmo assim
Isso não me impede de chorar
[...]
Você foi tão
cedo
A vida é um mistério
E ela não diz porque...
Mas tua semente hoje está
Presente e vai florescer..
A vida é um mistério
E ela não diz porque...
Mas tua semente hoje está
Presente e vai florescer..
(A tempestade e o sol – Banda Catedral)
O tempo não para. Isso é fato. Mas ele não leva
consigo alguns sentimentos e afetos que marcam a vida da gente. Sua passagem
ameniza a dor, a saudade, a sensação de vazio e de perda, mas nunca preenche o
espaço deixado por quem partiu para nunca mais voltar.
Na vida da gente muita gente passa. Gente que faz a
gente feliz, gente que faz a gente sofrer, gente que faz a gente ser gente.
Cada pessoa que, em determinado momento, cruzou o meu caminho, contribuiu, de forma
direta ou indireta, com o que sou hoje.
Eu tenho uma facilidade grande de lembrar de homens e
mulheres, nas fases da vida que passei, que me afetaram de forma positiva ou
negativa. Lembro de gente da primeira rua que morei, do sítio de meus avós, da segunda
rua no centro da cidade, escola infantil, do ensino fundamental, do ensino
médio, do magistério, do curso de história, da Igreja Universal, da Igreja
Betel Brasileiro, da catequese na Igreja Católica, dos retiros evangélicos e
carismáticos que participei, de vários movimentos e festas que estive presente.
Eu tenho uma facilidade muito grande também de nutrir
afeto. Sou fácil de ser conquistado. Basta um pouco de carinho e atenção que
consigo criar laços afetivos com quem quer que seja.
Muita gente partiu para outros estados. Muita gente
deixou de falar comigo. Eu deixei de falar com muita gente também. Muita gente
casou. Muita gente se divorciou. Vez em quando, pelas redes sociais, encontro
gente que há muito tempo eu não tinha notícia. De certo modo, a maioria
absoluta das pessoas que passaram por minha vida continua viva. Poucas
morreram. Das que morreram, uma em especial me tocou profundamente.
Há exatamente um mês, por volta de quatro e pouco da
tarde, eu deitado na minha cama, ouvindo Adele e meio que cochilando, sou
acordado com a notícia de que meu cunhado e minha irmã tinha sofrido um acidente de
moto. Levantei de sobressalto. Fiquei assustado. Mas pensei ser pequeno meu
susto, porque eu achava, até então, que nada de mais poderia ter acontecido. Eu
achava. Estava errado.
A situação de meu cunhado não estava boa. Minha irmã
estava bem. Mesmo assim, eu pensava que ele podia está muito machucado, que
iria se recuperar. A gente nunca pensa na morte de imediato. Sempre guarda a
esperança de que tudo esteja bem. Pouco tempo depois, no caminho do hospital em
Guarabira, fui informado de sua morte. Não quis acreditar bem. Só quando
cheguei lá, ouvi de algumas enfermeiras de plantão a confirmação, vi que não
existia qualquer esperança mais.
Pela primeira vez na vida, em vinte e cinco anos,
experimentei a dor da morte de uma forma intensa. Alguém perto de mim, chegado
a mim, partia de uma forma inesperada e trágica. Nunca chorei tanto. As coisas
lá em casa iam bem, depois de tudo que atravessei no ano passado. De repente,
quando o tempo de paz chega, algo interrompe, destruindo uma construção que
parecia sólida.
Lembro quando Iranildo chegou, pela primeira vez, na
minha casa. Nunca interferi nos relacionamentos de minhas irmãs (tenho duas). O
fato dele ser mais velho que Joelma chocou, a princípio, alguns familiares. Mas
o decorrer dos dias, dos meses, foi quebrando as resistências e formando uma
rede de afeto entre ele e nossa casa.
Ele me chamou para ser seu padrinho de casamento.
Fiquei honrado com o convite. Sempre nos demos bem. Apesar dele e minha irmã
morarem em outra casa, sempre estavam lá em casa, almoçando, jantando,
assistindo, acessando a net, conversando, fazendo pizzas...
Fiquei meio que desnorteado com sua morte. Acompanhei
tudo. Só sai de perto quando a terra cobriu totalmente o caixão que guardava
seu corpo.
De tanta gente que passou por minha vida, ele foi uma
pessoa que marcou. Nunca vou esquecer os momentos compartilhados juntos, em
família, as risadas, as brincadeiras...
Um mês se passou. Nunca vou esquecer o primeiro de
maio. Um adeus inesperado. Jamais imaginado. Mas, como diz a letra da canção de Catedral e em consonância com a minha fé cristã que ensina sobre a ressureição dos mortos, quando eu for recolhido desse mundo, a gente vai se encontrar, "não o sei dia e a hora, mas sei o lugar. Sei que você está bem, mesmo assim isso não me impede de chorar."
As pessoas só morrem de fato quando elas não
significaram nada pra gente. Se elas significaram alguma coisa, estarão para
sempre vivas em nossa lembrança.
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Quando o tempo é inerte...
Finjo não saber que o tempo passa logo
Finjo pra tentar conter a minha dor
Finjo não notar, mas toda noite choro
Choro de saudade do que já se foi
Finjo pra tentar conter a minha dor
Finjo não notar, mas toda noite choro
Choro de saudade do que já se foi
Eita, ainda penso muito no (nosso?) lance mal resolvido. Ainda sonho com o dia que você vai chegar e abrir a porta do meu quarto... Não consegui resolver essa lide de minha alma. Tentei. Lutei. Mas tudo foi como remar contra a maré.
Ah que bom seria se o tempo voltasse
Pra fazer tudo de novo, meu amor!
É como se a vida nunca acabasse
Reviver os passos seja como for
Pra fazer tudo de novo, meu amor!
É como se a vida nunca acabasse
Reviver os passos seja como for
Talvez eu não quisesse voltar ao passado. Talvez fosse melhor eu nunca ter te conhecido. Talvez minha vida, sem ter esbarrado com você, fosse bem melhor... Talvez, talvez, talvez... Nunca irei saber ao certo. Mas é foda o que sinto ainda.
Lembrar do que foi bom
Mas também quero tropeçar nas mesmas pedras do caminho, refazer a mesma rota que o me coração traçou
Mas também quero tropeçar nas mesmas pedras do caminho, refazer a mesma rota que o me coração traçou
No fundo sinto que valeu a pena, não obstante meu sofrimento ser superior e mais duradouro – até hoje?! – que o prazer vivido juntos... Contudo, acho (não tenho certeza!) que se diante de mim eu tivesse uma oportunidade de te esquecer ou voltar a viver tudo como antes, talvez (sempre um talvez!) eu aceitasse reviver...
Deixa eu voltar quero voltar, entrar na máquina do tempo é só ilusão eu sei, quero voltar quero viver o mesmo sonho e de novo encontrar você!
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Essas leseiras surgiram quando eu escutava essa música de Flávio Venturini. A canção é linda. Ótima para viver uma dor de cotovelo boa, daquelas que arrancam lágrimas, que deixa a gente irado, que meche com a alma... De preferência com uma boa bebida também.
Essas leseiras surgiram quando eu escutava essa música de Flávio Venturini. A canção é linda. Ótima para viver uma dor de cotovelo boa, daquelas que arrancam lágrimas, que deixa a gente irado, que meche com a alma... De preferência com uma boa bebida também.
Às vezes, chego a pensar que aquela conversa de que o tempo cura tudo é pura ilusão. Conheço pessoas que sofrem, depois de muitos anos, de décadas, pela perda um ente querido. Conheço pessoas que se divorciaram há anos, mesmo assim nunca conseguiram se envolver afetivamente com outra pessoa. Acho que é melhor aprender a conviver com essa situação do que se esforçar para que ela acabe...
sábado, 28 de janeiro de 2012
Um ano longe do armário
Ia deixar sem registrar essa data. Mas pensei durante toda a semana e durante todo esse dia. A liberdade não tem preço.
Conhecer quem de fato ama você (amigos de verdade e familiares que você pode contar) é a melhor coisa do mundo. Poder viver sem medo, sem temor (apesar de tantos homofóbicos por aí), ser você mesmo é maravilhoso.
Sair das sombras, das trevas, do armário que aprisiona e sufoca todos e todas que fogem aquilo que uma sociedade heteronormativa diz ser nomal é sem comparação.
Uma professora uma vez me disse que sair do armário é uma experiência libertadora. Um ano depois eu confirmo isso. Há um ano, dia 27 de Janeiro, meu armário era implodido.
Nesse período conheci pessoas maravilhosas, que me ajudaram em vários momentos. Por algum tempo pensei que ia morrer, que ia sucumbir a tudo que enfrentei.
O primeiro semestre na faculdade foi terrível. Mal eu prestava atenção nas aulas. Alguns colegas notaram uma diferença, mas eu não me sentia a vontade para abrir meu coração. A cada instante eu pensava quando ia deixar a faculdade.
A morte para mim não era temida. Era bem vinda. Durante muito tempo eu quis morrer. Não pensava em me matar, como antes, mas se a morte viesse me buscar seria um alívio diante de tanta dor que passei.
"Por que, culturalmente, nós nos sentimos mais confortáveis vendo dois homens segurando armas do que dando as mãos?" perguntou Ernest Gaines. "A sociedade não gosta, o povo acha estranho", canta Cássia Eller.
No segundo semestre tentei recuperar o tempo perdido. Assim que rompeu o primeiro de julho eu disse pra mim mesmo que aquela era uma nova fase na minha vida. E foi.
Voltei a ler com força. A estudar mais ainda. Tentei duas seleções de mestrado em história, não logrei êxito, mas a experiência foi valiosa. Participei das conferências LGBT (local em Guarabira, estadual em João Pessoa e nacional em Brasília). Conheci muita gente. Comecei a reescrever minha história.
O que achei legal foi que minha saída do armário coincidiu com o ano que o judiciário brasileiro, através do STF, reconheceu a união estável entre homossexuais e o STJ reconheceu a possibilidade jurídica do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Nunca antes a TV Brasileira abordou tanto a questão LGBT nas novelas, debates. Também foi o ano que o discurso homofóbico mais forte ficou no Congresso Nacional, o ano que mais matou lésbicas, gays e travestis no Brasil.
Passei um tempo para reconstruir uma nova vida, mas hoje garanto que, se não sou completamente feliz, por não ter realizado meus sonhos ainda, estou a caminho. Muita coisa sei que vou enfrentar. Mas o principal já enfrentei que foi a minha família. O resto é de somenos.
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