quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Repete-se


Hoje ele confessou o que há um tempo tenho desconfiado. Mas eu merecia isso. Eu fiz isso antes. Fiz quando a gente tava ficando, quando a gente não considerava um namoro, quando a gente nem sabia o que a gente queria direito.

Aquela conversa, na pizzaria, no começo de abril, foi tensa. Resquício de quem vive apegado a um passado morto que insiste em ressuscitar sem querer sair do túmulo. Uma morte não finda. Uma vida sem vida.

Aquele fim de semana tinha sido tenso para mim. De repente eu soube que o outro, o ídolo, estaria nas redondezas. Tremi nas bases. Deixei de ir para lugares que eu achava que podia me esbarrar com ele. Tudo vão.

Saí na tarde de sábado para tentar espairecer. Foi pior. Deixei-me seduzir pelo álcool. Fui a lugares que nunca deveria ter conhecido. Fiz coisas que, sem dúvidas, se tivesse sóbrio jamais teria feito.

Encontrei duas ex - paixões. Tá vendo como esses mortos sempre me procuram? Fugi de um que estava distante, apareceram dois que estavam perto. Por que tem que ser assim? Talvez não tenha. Talvez eu goste desse sadomasoquismo amoroso.

Não aguentei muito naquele espaço. Minha vibe era outra. De repente todo mundo junto, acompanhado e eu naquela solidão provocada. Não aguentei e mandei um áudio no whatsapp para ele. Ele que tava numa história até legal comigo, apesar de complicada.

Eu queria está junto. Eu queria ter alguém para mim. Eu tinha alguém que era meu e não meu ao mesmo tempo. Desejo de posse. Ser proprietário. Algo tão egoísta, tão machista, tão andocentrico. Meus pecados. Confesso-os. Apesar de saber que não terei absolvição.

Na pizzaria o silêncio falava tão alto que explodia dentro de mim, dentro de nós dois. Revi os áudios enviados na noite anterior. Percebi que tinha extrapolado os limites. Rompemos ali. Um rompimento implícito.

A saudade explodiu dias depois. Não aguentei. Postei uma foto no instagram de uma frase escrita por ele e que tava colada no meu guarda-roupa. Teve o efeito que eu queria. O contato foi reatado.

Saímos várias vezes até eu conseguir aquilo que desejava. Algo oficial. O dia foi o dia dos namorados. Pobre de mim, sempre querendo posse, sempre pensando em comemorar esse dia com um garoto, sempre desejando satisfazer meus interesses egocêntricos.

Depois de enrolações eu consigo meu intento. Pensei que ia construir algo definitivo com ele. Mas depois daquele dia, que inclusive eu havia dado um presente sem receber nada em troca, só nos encontramos uma vez. Estranho, né?

O tinder, ah o tinder! Através desse aplicativo nos conhecemos. Eu sempre desconfiei de quem namora e usa ele. Quando um amigo virtual me mostrou uma combinação, eu estranhei e o ciúme começou a me corroer.

E nossas conversas rareavam no whatsapp. Às vezes eu ligava, mas ele tava jogando. Afinal, jogar é melhor do que falar com o namorado, né? Que saudade daqueles outros tempos que não vivi, quem eram ruins, mas que me deixam jogar a culpa dos meus fracassos nesses avanços tecnológicos tão distantes de minha adolescência numa cidade do interior paraibano.

Hoje não aguentei. Eu tava desconfiado de algo estranho. Puxei papo. Pouco a pouco ele se abre. Ainda receoso. Confessa o que perturbava meus pensamentos. Dia 12 oficializamos o namoro. Entre o dia dos namorados e ontem, 29 de junho, ele ficou com alguém.

Joga a culpa em mim. Diz que já fiz. E já fiz mesmo. E confessei antes que ele desconfiasse de algo. Mas naquele tempo nossa história tava truncada. Não quero me justificar, caramba! Mas, porra, podia ter ficado antes do dia 12, quando a gente tava retomando, nera?

Um baque. O mundo caiu. Meu egoísmo insiste em não compreender as justificativas. Ah, egoísmo, machismo, patriarcalismo, qualquer outro nome que venha tentar compreender o sentimento de posse roubada do outro, pode me descrever nesse momento.


Não sou santo. Nunca fui. Queria ser, mas não consigo. Mas macular um ninho que estava em formação é muito para meu sentimento. Escrever isso é exorcizar o mal que me habita.

29/06/2015

sábado, 10 de maio de 2014

O orgulho dentro de mim

Sou orgulhoso. Acho que todo mundo é. Mas algumas pessoas iluminadas conseguem esconder ou controlar o orgulho. Outros não.

Tem aquele orgulho bom, né? Quando a gente faz um trabalho que gera um resultado bom, por exemplo. Quanto orgulho, quanta satisfação! Algumas vezes, eu fico impressionado comigo mesmo.

Mas não quero falar desse orgulho enquanto sentimento de satisfação ou de reconhecimento. Falo daquele que está ligado a sentimentos menos nobres, ligados ao ego ferido, relacionado a incapacidade das pessoas reconhecer seus erros e voltar atrás. Ah, confesso que tenho isso.

Tive alguns relacionamentos (dois ou três ao longo de meus vinte e sete anos de vida!) que o orgulho falou mais forte do que o afeto que eu nutria. Eu sabia que poderia existir a possibilidade de reatar a relação, mas não quis. Por quê? Puro orgulho.

Voltar atrás não é muito meu forte.

Decisões importantes eu tomei. Algumas me arrependi amargamente. Noites seguidas rolei na cama, lágrimas caíram, mas jamais fui capaz de reconhecer que eu seria capaz de rever alguma decisão tomada, mesmo sabendo que isso evitaria sofrimentos inúteis no futuro.


Mas a gente aprende com o tempo. Gosto daquele lugar comum que diz que a melhor aprendizagem ocorre na escola da vida. Então, tentei rever algo que fiz dias atrás com a cabeça quente. Não sei se vai dá certo. Mas um efeito positivo já gerou em mim: resisti a esse orgulho mesquinho que habita em meu interior, reconheci um erro e voltei atrás. E hoje já sou outra pessoa. Menos orgulhosa. Isso faz toda a diferença. 

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Pai comprou bolachas recheadas

Pai comprou bolachas recheadas. Fazia tempos que, nas compras do mês no supermercado, ele não comprava. Fiquei surpreso quando mãe disse que ele tinha feito isso. Um milagre.

Amo bolachas recheadas. Ou biscoitos recheados como diz na embalagem. Tanto faz. Desde pequeno que sou doido por esse tipo de comida que faz tanto mal a saúde, mas é tão bom pro paladar.

Dias atrás, durante a noite, bateu a vontade de comer biscoitos recheados. Eram nove horas da noite. Peguei a bicicleta. Fui até o outro lado da cidade. Lá tem uma padaria que fica, ou ficava, aberta até tarde. Fui todo animado. Até chuva peguei no meio do caminho. Mas chegando lá, para a tristeza geral da nação, a padaria estava fechada. Que raiva!

Essa vontade repentina que bateu, parecendo até desejo de mulher grávida, se deu em virtude de há alguns meses não ter comprado mais meus biscoitos recheados. Desde que pai cortara, há uns anos, a compra deles, eu é que tinha que desembolsar a aquisição de minhas biscoitos diletos.  Mas na busca para perder alguns quilos, acabei traindo essa relação de amor antiga.

No dia seguinte, fui no supermercado perto de casa e comprei três biscoitos de chocolates. Matei a vontade.

Quando criança eu ansiava pelas compras mensais porque sabia que, além dos gêneros alimentícios e outros produtos essenciais na vida doméstica, viria os biscoitos.

Hoje, depois de anos, quando cheguei na cozinha, mãe disse: teu pai comprou biscoitos recheados.

São 22:49. Acabo de comer uma bolacha recheada de morango. Voltei, por uns instantes, a ser o menino de 15 anos atrás. E torcendo para que próximo mês a boa nova se repita.

domingo, 29 de setembro de 2013

Voltando

Nossa, como fazia tempo que eu não postava nada aqui! O facebook tem reinado soberanamente em minha vida. Passo a maior parte do meu tempo lá. Os grupos de debates, as páginas, comunidades, atualizações dos milhares de amigos virtuais que tenho, tudo isso tem ocupado minha navegação no mundo virtual.

Confesso que esse blog perdeu um pouco de sentido para mim. Muitos textos escritos eram desabafos de um coração amante. Outros tempos. Tempos bons aqueles. Tempos das paixões inebriantes e dos sofrimentos também. Mudei. Todo mundo muda o tempo todo. Cresci. Larguei aquelas ilusões afetivas. Não que eu não possa vir, em um futuro, a ter algum sentimento arrebatador por outra pessoa no futuro, mas não vislumbro isso para mim.

Dias atrás, eu lembrava de quando eu gostava de Luan Santana (risos). Hoje acho hilário lembrar que já fui fã desse cara. Não apenas gostava dele, mas Luan marcou um período importante na minha história sentimental. Ainda hoje, passado tanto tempo, toda vez que escuto, por exemplo, "meteoro da paixão", o passado volta como se eu tivesse acessado um link de um algum site. Imediatamente vem os sorrisos, os cheiros, os medos, os anseios, os desejos...

Cheguei hoje a esse blog devido uma nostalgia que me abateu de repente. Meu computador, há meses, estava sem funcionar. Um amigo veio agora a tarde formatá-lo e ajeitá-lo. Voltou a funcionar normalmente. Quando comecei a mexer nele, fuçando os vários arquivos e pastas, me deparo com as centenas de fotos que tenho. Comecei a ri, deu vontade de chorar, bateu saudade. 

Depois desse momento contemplativo de fotos, fui bater no orkut (risos). Pois é, os meus dois perfis ainda estão na ativa. Parece que o domingo serviu para eu voltar a um tempo que não volta mais, mas que vive na lembrança bem guardado e sempre pronto para vir à tona.

Vou voltar a escrever nesse blog. Os tempos são outros, mas não rompi completamente com as outras temporalidades que experienciei. 

São 20:39

sexta-feira, 8 de março de 2013

8 de março de 2013

O 8 de março chegou. Temos (eu me incluo também já que não precisa ser de determinado gênero ou grupo pra celebrar vitórias ou lutar por avanços dele) muitas conquistas. Mas muito desafios. 

O direito penal brasileiro tem mecanismos legais para enfrentar a violência contra as mulheres, a Constituição diz que homens e mulheres são iguais, ninguém ousa, abertamente, dizer que mulheres são inferiores aos homens... mas na prática, todo mundo sabe, isso é bem diferente. 

A Lei Maria da Penha, por exemplo, não tem sido aplicada de fato. A igualdade constitucional não se realiza, uma vez que, nas mesmas profissões, homens e mulheres não ganham de forma semelhante. 

Além disso, não dá pra comparar uma mulher de classe média alta com uma mulher que mora numa cidade do interior ou numa favela de uma grande cidade. Não dá pra comparar a mulher branca com a negra. A mesma experiência de preconceito e discriminação da mulher lésbica ou trans não é vivenciada pela mulher hétero. A mulher de religião cristã está, socialmente falando, em um patamar muito superior que a mulher de religião afro. 

Temos prefeitas, vereadoras, deputadas, senadoras, uma governadora de estado, ministras, juízas, desembargadoras, presidenta da república, empresárias... Mas também temos muitas mulheres que nem podem sair de casa, que vivem em um sistema patriarcal que as aprisionam, que as silenciam, que impede qualquer manifestação no sentido de romper com a lógica androcêntrica na sociedade. 

Nesse dia 8 de março não é possível louvar, tão somente, as conquistas, mas, acima de tudo, é preciso discutir os desafios para a construção de uma sociedade justa, fraterna e solidária, sem esquecer, também, que a opressão de gênero não pode ser dissociada da opressão sexual, econômica, racial e religiosa.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Os intelectuais que têm algum sentido ético precisam falar sobre a Terra ameaçada. Entrevista especial com Leonardo Boff

“Enquanto houver alguém gritando no mundo, sejam mulheres, afrodescendentes, indígenas, pessoas discriminadas, sempre têm sentido, a partir da fé, falar e atuar de forma libertadora”, defende o teólogo.

Confira a entrevista.


“A Teologia é séria quando toma a sério o testemunho dos invisíveis, dos desprezados, daqueles que ninguém conta. Cada pessoa é única no mundo, tem algo a dizer, a mostrar. Ignorante é aquele que pensa que o povo é ignorante. O povo sabe muito da vida, da sua luta”, afirmou Leonardo Boff em entrevista concedida, pessoalmente, à IHU On-Line.
Para Boff, “nosso desafio não é o de criar cristãos, mas de criar pessoas honestas, humanas, solidárias, compassivas, respeitosas da natureza dos outros. Se conseguirmos isso é o sonho de Jesus realizado”. E continua: “há um dito que diz: onde estão os pobres está Cristo, e onde está Cristo está a Igreja. Só que não é verdade que onde está o pobre está a Igreja. Ela está mais perto do palácio de Herodes do que da gruta de Belém. A Igreja precisa ver qual é o seu lugar na sociedade”.

Leonardo Boff, filósofo, teólogo e escritor é professor emérito de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. É autor de mais de 60 livros nas áreas de teologia, espiritualidade, filosofia, antropologia e mística, entre os quais citamos Ecologia: grito da terra, grito dos pobres (São Paulo: Ática, 1990); São Francisco de Assis. Ternura e vigor (8. ed. Petrópolis: Vozes, 2000); Ética da vida (Rio de Janeiro: Sextante, 2006); e Virtudes para outro mundo possível II: convivência, respeito e tolerância (Petrópolis: Vozes, 2006).
Leonardo Boff é autor do artigo A busca de um ethos planetário publicado nos Cadernos IHU ideias, no. 169.


Confira a entrevista.
IHU On-Line Qual a diferença da Teologia da Libertação das décadas de 1970 e 1980 e hoje, com a globalização neoliberal? Ela é capaz de responder aos desafios contemporâneos?
Leonardo Boff – A Teologia da Libertação parte do grito dos oprimidos, que hoje são os pobres. Até 2008 havia 860 milhões de pobres no mundo e a crise econômica e financeira elevou esse número a um bilhão e 200 milhões. Os gritos viraram um clamor. Enquanto houver alguém gritando no mundo, sejam mulheres, afrodescendentes, indígenas, pessoas discriminadas, sempre têm sentido, a partir da fé, falar e atuar de forma libertadora. Então, é uma teologia permanente, porque, pela condição humana, todos, até os mais ricos e equilibrados, carregam suas cruzes: é o medo da morte, a exposição a acidentes, a perda do filho ou da esposa; não temos uma vida assegurada. A condição humana é assim e deve ser construída a cada dia, com sua angústia e opressão. Nesse sentido, a fé cristã oferece um caminho para a pessoa se liberar, colocando a vida mesmo uma vida que fracassou na palma da mão de Deus, obtendo assim uma libertação espiritual. A mensagem de Jesus é libertadora por isso. E uma teologia que não produz esse efeito humanizador não pode ser chamada herdeira ou que está no legado de Jesus.


IHU On-Line Como compreender que o cristianismo, que nasceu no primeiro mundo, hoje não faça parte deste universo europeu, ou ao menos não tenha tanta relevância entre ele, e se demonstre mais vivo no terceiro mundo?
Leonardo Boff – Primeiro, há um problema de estatística. Mais da metade dos cristãos e católicos vive no terceiro mundo. De fato, é uma religião do terceiro mundo, embora as origens sejam no primeiro. E se falarmos em termos de criatividade, de presença, veremos que a criatividade não está no primeiro mundo, onde temos culturas agônicas, que lentamente estão “descendo a rampa” da vida; são civilizações que não cultivam a esperança porque não veem qual é a esperança para elas. No fundo, conquistaram tudo o que queriam, dominaram o mundo, impuseram suas ideias, suas filosofias, seus valores, sua música, e agora dizem que são infelizes. Isso significa que o ser humano não só tem fome de pão, de bens materiais, mas também tem fome de beleza, de comunicação, de amor, de solidariedade. E esses valores estão presentes principalmente entre os pobres. Se há uma coisa que os pobres guardam é a cultura da solidariedade, a alegria de viver com o pouco que têm. Isso aparece até nas novelas da Globo, como essa chamada Avenida Brasil: onde estão a vida, a solidariedade e a alegria? Não estão na alta burguesia; estão na favela do Divino. Nesses lugares da Ásia, da África, da América Latina, o cristianismo se mostra criativo. Ele se encarna nas culturas locais, e então passa a ter um rosto diferente, músicas e símbolos diferentes. Agora estão aparecendo novos santos e mártires que são nossos. E tem a questão das mulheres daqui também. E não é só o fato de serem mulheres fazendo teologia, porque a mulher americana rica também a faz. Aqui temos a mulher pobre que não quer ingressar no mundo dos ricos, mas quer ser solidária. Então, faz uma teologia feminina diferente. Elas até brigam com as americanas, por exemplo, fazendo a crítica a elas, dizendo que não adianta fazer teologia só para integrar as mulheres, pois estarão apenas contribuindo para engrossar o mundo dos opressores. As latino-americanas pedem solidariedade a elas como mulheres e como oprimidas. Se não for isso, não será uma verdadeira Teologia da Libertação.



IHU On-Line A partir da vivência, na prática da Teologia da Libertação, como o senhor define que deveria ser uma teologia séria?
Leonardo Boff – A Teologia é séria quando ela toma a sério o testemunho dos invisíveis, dos desprezados, daqueles que ninguém conta. Cada pessoa é única no mundo, tem algo a dizer, a mostrar. Ignorante é aquele que pensa que o povo é ignorante. O povo sabe muito da vida, da sua luta. É um saber, como diz Camões, “de experiências feito”. Somos sérios quando damos valor ao que o povo diz, que não são palavras, mas dramas e gritos. Em segundo lugar, é preciso saber formular isso de uma maneira rigorosa e universal, de forma que todos possam entender.

IHU On-Line Quais os limites da Teologia no mundo hoje? Que desafios ela tem a enfrentar no século XXI, considerando a contribuição que pode oferecer à sociedade contemporânea, principalmente à crise ecológica e ambiental?
Leonardo Boff – A primeira tarefa da Teologia e das igrejas é elas assumirem que são cúmplices do mundo a que chegamos hoje. Isso significa que houve algum erro na nossa transmissão da fé, na nossa vivência bíblica, pelo qual não conseguimos evitar a crise ecológica e a crise econômica mundial. Não temos a chave da salvação, somos parte do problema. E com muita humildade, precisamos renunciar a toda a arrogância de que “temos a palavra da revelação e então sabemos”. Nós não sabemos. Temos que nos unir a todos os grupos, começando pelos pobres – que têm sua sabedoria , e depois com o discurso das ciências, das outras igrejas, com todos os discursos que criam sentido. Além disso, é muito importante sentir-se um discurso junto com os demais, não tendo exclusividade, afirmando que “nós temos a revelação; nós temos a chave”, porque, na verdade, não a temos. Quando a Igreja teve essa arrogância e assumiu o poder, foi um fiasco. Governou mal, até 1890 ainda havia pena de morte nos estados do Vaticano, além de cometer grandes erros históricos contra a modernidade e os direitos humanos. Então, ela não pode apresentar títulos de credibilidade. Primeiro, precisa reconhecer que pode aprender no diálogo e que pode dar uma contribuição a partir do que vem do exemplo de Jesus. Nosso desafio não é o de criar cristãos, mas de criar pessoas honestas, humanas, solidárias, compassivas, respeitosas da natureza dos outros. Se conseguirmos isso é o sonho de Jesus realizado.

IHU On-Line Quais as principais ameaças que pesam sobre nosso futuro?
Leonardo Boff – São dois blocos de ameaças. Um vem pela máquina de morte, que é nossa cultura militarista, que criou um tal número de armas nucleares, químicas e biológicas que pode destruir muitas vezes toda a vida do planeta. São armas muito deletérias, que estão em segurança, mas nunca segurança em absoluto. Vimos isso em Chernobyl e Fukushima. Além disso, temos as nanotecnologias. A guerra cibernética pode ser de alta destruição. Trata-se de uma guerra não declarada, de extrema violência e que pune os inocentes. O segundo bloco de ameaças é aquilo que nosso processo industrialista fez nos últimos 300, 400 anos, com a sistemática agressão à Terra, aos seus bens, seus recursos. Chegamos a um ponto em que desestabilizamos totalmente o sistema Terra, e a manifestação disso é o aquecimento global. Para repor o que tiramos da Terra em um ano, ela precisa de um ano e meio. Então, a Terra já está exterminada. Estamos alcançando uma temperatura perto de 2º C e a comunidade científica norte-americana alertou para o fato de que, com a entrada do metano, do degelo das camadas polares e outros fatores, a Terra vai se aquecendo devagar e, de repente, a febre de 37º C pula para 45º C. Com esse aquecimento abrupto, a vida que conhecemos hoje não vai subsistir, nem animal, nem vegetal, nem humana. Como temos tecnologia, podemos criar pequenos oásis refrigerados para grupos de seres humanos que, seguramente, vão invejar quem morreu antes, tão miserável será a vida. Isso pesa sobre a humanidade nos próximos decênios e ninguém acredita nisso, porque vai contra o sistema da acumulação, contra o capitalismo, contra as grandes empresas. Os intelectuais que têm algum sentido ético precisam falar sobre isso.

IHU On-Line Em que situações de nossa sociedade mais se pode ver o Cristo Crucificado?
Leonardo Boff – Há um velho dito da tradição cristã que diz: onde está o pobre, aí está Cristo. Hoje temos que olhar em cada cidade do terceiro mundo, os grandes cinturões de miséria, as favelas. O cristão que toma a sério a percepção de que Cristo está onde o pobre está tem que visitá-lo. Não basta identificar que lá tem uma favela. É preciso ir até lá, conversar com as pessoas, ver como é possível ajudá-las a se organizar melhor. Há outro dito que diz: onde estão os pobres está Cristo, e onde está Cristo está a Igreja. Só que não é verdade que onde está o pobre está a Igreja. Ela está mais perto do palácio de Herodes do que da gruta de Belém. A Igreja precisa ver qual é o seu lugar na sociedade.

IHU On-Line
Em que sentido o capitalismo pode ser apontado como anticristão?
Leonardo Boff – Em primeiro lugar, o capitalismo é antivida. Ele assassina as vidas humanas para acumular. Para que alguns tenham qualidade de vida, muitos devem ter péssima qualidade de vida. E isso é injusto. E tudo o que vai contra a vida acaba sendo contra aquele que disse: “Eu vim trazer vida e vida em abundância”. Por isso é anticristão. E isso custou muito aos cristãos reconhecerem, porque as igrejas se instalaram muito bem dentro do sistema capitalista. A Igreja teve dificuldade de condenar, pois o capitalismo não nega a Igreja, nem a religião. Pelo contrário, defende a Igreja e a moral. Só que, na prática, nega tudo isso. E essa é a grande ilusão da Igreja, pois o capitalismo passa por cima de todo mundo, sem solidariedade. Nele, só o forte ganha.

IHU On-Line Baseado em que o senhor afirma que os Estados Unidos é o grande terrorista mundial?
Leonardo Boff – Na prática ele é o grande terrorista porque, na América Latina, apoiou todas as ditaduras e participou ativamente de atentados, sequestros de pessoas, fornecendo informações. E continua com essa estratégia, que é a estratégia do império. Onde há uma oposição, ele vai e destrói. Só me admiro que não conseguiu eliminar ainda Hugo Chávez, na Venezuela, nem Fidel Castro, mesmo tentando por 17 vezes, sem resultado. Os Estados Unidos sempre usa a violência militar para se impor. E faz isso em todas as partes, como fez na Líbia, por exemplo, com os aviões não pilotados. Acredito que assim que passar as eleições fará uma intervenção na Síria com aviões não pilotados também.

IHU On-Line – Independentemente se Obama fica ou não?

Leonardo Boff – Independentemente. Até o próprio Obama. Porque eles não vão segurar Israel e também não vão liquidar com o Irã. Então, a arma não é a diplomacia e a busca de caminhos de paz, mas a arma da submissão. E eles são fortes, hoje, não na economia – pois a China é mais , nem na tecnologia – o Japão e outros países são mais ; eles só têm o domínio militar do mundo, com a possibilidade de matar a todos. Em nome disso, submetem todo o mundo. Não há ninguém que se oponha ao império, a não ser Venezuela, Cuba e Coreia do Norte. Todos os demais, inclusive o Brasil, fazem inclinação aos Estados Unidos. É um império cujo imperador é afro-americano, mas com a mesma perversidade de Bush e outros, porque o projeto não mudou.

IHU On-Line O senhor disse que reconhecer a Igreja de Roma como a única verdadeira é um erro teológico. Por quê?
Leonardo Boff – É um erro teológico porque supõe o conceito reducionista de Deus, como se Ele dissesse: “Esses são meus filhos e aqueles não são; essas são minhas criaturas queridas e aquelas são filhos abandonados”. Isso não existe para Deus. Todos nasceram do seu coração. Deus acredita em todos os seres humanos. Todos são filhos e filhas, não só os batizados, que por acaso nasceram no Ocidente. Então, uma Igreja que não faz isso se opõe a Deus.
(Por Graziela Wolfart. Foto de Wagner Altes)

IHU

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Uma nova tentativa

Tá voltando tudo... o sentimento... aquele negócio de ficar leso... de ouvir música pra sonhar acordado realizando os desejos não possíveis no momento... aquela coisa de contar os dias pra rever... aquela ansiedade pra receber um sms ou uma ligação...

A primeira tentativa não deu certo... talvez eu tenha sido meio intransigente... é que depois de um tempo, depois das experiências acumuladas, a gente aprende a não esperar muito de algo não muito certo...

E dessa vez vai dá certo? Não sei... 


segunda-feira, 25 de junho de 2012

A festa, a saudade e a foto


De novo. Sem esperar. Em um ambiente que em nada lembraria. Com amigos que nada sabiam. Bebendo bebidas que nunca foram tomadas por nós. A lembrança, sempre ela, do nada, fez minha noite, por algum instante, parar.

A música que a banda tocava, muito agitada, com uma letra nada romântica, também não contribuiu para essa saudade repentina.

Pessoas passavam, me cumprimentava, eu fingia, com um sorriso no rosto, que estava bem. Na verdade eu estava bem. Apenas algo repentino veio quebrar aquele momento festivo. Quebrar pra mim, claro, porque todos estavam alegres ao meu redor. Eu também, aparentemente, estava.

Encontrei um amigo. Ele me entenderia. Eu pensava. Mas ele tava tão alterado pela quantidade de cervejas tomadas durante o dia que mal prestou atenção no que eu disse. Ou seja, ninguém ficou sabendo de meu estado emocional interno.

Era quase meia-noite. Decidi entrar no movimento da festa. Comprei uma bebida quente. O clima não estava propício para uma cerveja. Queria ficar alterado logo. Tomei a primeira dose de uma vez. Pedi outra. Mais outra. Lá pela quinta dose, eu comecei a sentir no corpo, na mente, na minha voz, o efeito das doses fortes.

Começou a tocar uma música que falava de paixão. Comecei a cantar. Pedi outra dose. Dessa vez sem energético. Eu já estava muito enérgico. Acompanhei a cantora na outra música, mesmo distante do palco, eu me sentia como se fosse o artista daquela festa, bem solto, festivo e cantante. Cantei movido a saudade e a bebida.

A banda termina seu show. Eu decidi que minha hora de ir embora tinha chegado. Contudo, como vi que estava não muito seguro do meu corpo, sai com alguns amigos para uma praça. Ficamos sentados. Eles continuaram bebendo. Eu, para disfarçar minha situação interna naquele momento, comecei a conversar.

Pessoas bêbadas têm a mania de falar de chifre. Todo mundo naquela roda já tinha levado ou botado chifre. De repente, contrariando minha razão, pedi uma dose. Nunca uma tinha bebido uma dose tão ruim. Desceu ardendo. Rasgando tudo. Só queria que aquela dose rasgasse as arestas do nosso relacionamento mal resolvido que estavam dentro de mim e que naquela noite tinha vindo à tona.

Quase quatro horas da manhã. A bebida tinha acabado. A conversa estava rareando. O cansaço tomava conta de mim e dos amigos. Eu queria dormir. Fui pra casa. Deitei. Mas levei comigo aquela lembrança indesejada que me assaltou no início da festa e que foi comigo até o momento de meu recolhimento. Quando me levantei, não lembrei mais daquela presença inoportuna em meu coração.

Hoje à tarde, contudo, enquanto estudava, um amigo ligou pra mim. Do nada, depois que desliguei o celular, vi, num cantinho do meu quarto uma foto com uma impressão nada boa, mas que me fez viajar até o momento que a máquina fotográfica tinha eternizado aquele momento entre nós. E aí, lembrei da festa da noite de sábado. E cai na cama pensando como teria sido diferente se a vida tivesse sido mais generosa conosco. Adormeci. Quando me levantei, decidi escrever. Escrever é uma forma de exorcizar o que me faz mal. Essa lembrança sua, definitivamente, não me faz bem.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Quando sou atroz




A criatura humana é capaz das piores atrocidades possíveis. Aliás, acredito, que só os homens e as mulheres são capazes de atrocidades. Os animais agem por instituto, por necessidade natural e irresistível de defender-se ou alimentar-se, mas não comentem qualquer ato gratuito contra outro de sua espécie ou de outra diferente.

Acho bacana a idéia paulina de que todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus. Para muitos teólogos, sobretudo os calvinistas, nenhum ser humano é bom. Todos nascem mal por natureza. Todos merecem o inferno. Se não fosse a graça de Deus, dizem esses pensadores, que escolheu alguns, segundo sua soberana vontade, para morar no céu, ninguém se salvaria.

Mas não quero falar em teologia cristã. Quero falar da ruindade humana. Daquilo que as pessoas fazem de mal as outras pessoas. Algumas porque gostam. Outras por engano. Outras por pensar que não vão magoar ninguém.

O pior de tudo é que pessoas que sofreram também são capazes de fazer outras passarem pelo mesmo sofrimento que levaram tempo para superar. Isso é ruim. Já vi esse filme várias vezes. O pior é que também já fui protagonista de uma história parecida. O mesmo motivo que me causou sofrimento, eu, por pensar que não ia magoar outra pessoa, terminei causando.

A lição ficou. Depois que o leite foi derramado não há mais nada que fazer. Agora é seguir em frente e aprender que meu lado bruto, selvagem, desumano até, pelo menos para meus princípios e valores pessoais, pode aflorar mesmo que eu pense está tudo de acordo com a normalidade do ambiente que vivo, afinal de conta, o que fiz não foi reprovado por ninguém, pelo contrário, foi até exaltado.

Não matei, não roubei, não estuprei ou cometi qualquer outro crime previsto no Código Penal brasileiro ou em leis extravagantes. Mas algumas coisas são crimes contra a alma, contra o afeto, contra o sentimento. E pra mim, de acordo com minha ideologia de vida, isso é crime tipificado na lei do amor.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Os traficantes do amor




Estamos cercados por uma indústria que explora a nossa carência

Por IVAN MARTINS
 
Na minha mesa de trabalho há uma rosa amarela do dia dos namorados. Entraram aqui um fortão e uma loirinha, vestidos de anjo, e deixaram o presente em nome de uma marca de cerveja. Achei engraçado, mas, assim que eles saíram, bateu certa melancolia. Como é fácil banalizar as coisas que nos comovem. Como é simples transformar em clichê – ou babaquice – os sentimentos terríveis que definem a nossa humanidade.
Olhe em volta: estamos cercados pela palavra amor.  

Há um milhão de livros com esse título, dez milhões de músicas com esse refrão, centenas de filmes e um batalhão diário de novelas que trata do assunto. Pela quantidade de produtos amorosos que nos oferecem, é inevitável concluir que consumimos mais amor do que cerveja, chocolate e televisores de tela plana. Talvez um pouco menos que celulares. 

Nosso apetite por amor não tem limites. Nossa sede de amor jamais acaba. Somos carentes insaciáveis. Sonhamos com o amor todas as noites. Acordamos encharcados de imagens doloridas. Dentro de nós se agita um mar de memórias que tem como centro as nossas experiências de afeto. Velhas, remotíssimas, e recentes. Elas nos movem de forma inconsciente. Somos filhos, somos irmãos, somos amigos, somos amantes, somos pais e mães. Todos nós. A cola que liga todas essas situações é o amor.  

Começamos a receber amor ainda minúsculos, nos braços da mãe, e nunca mais paramos. Ele nos constitui emocionalmente, como os músculos e os ossos nos formam fisicamente. É parte essencial de nós e precisa ser reposto, realimentado, revivido a cada dia, a cada momento, em um processo que, a rigor, nunca tem fim.  

Um alienígena que chegasse à Terra iria perceber, em dois minutos, nossa abissal vulnerabilidade. Além de água, alimento, abrigo, precisamos desesperadamente de amor - em várias formas, em qualquer forma na verdade. Somos viciados nele. Erguemos nossa vida em torno dele. Do erotismo violento da adolescência aos sentimentos suaves da velhice, nossa existência é uma longa experiência amorosa – ou uma busca desesperada, e muitas vezes cega, muitas vezes infrutífera, pelo amor. 

É por isso que me incomoda a banalização comercial do sentimento. Ela me parece uma covardia, quase uma canalhice. Algo como oferecer luz a um cego. Diante do amor, somos todos ingênuos, frágeis, facilmente enganáveis. É simples nos vender qualquer coisa, nos iludir com qualquer promessa. Estamos, desde crianças, atrás da próxima dose dessa droga – e, às vezes, tenho a sensação de estarmos cercado de traficantes que não entregam a mercadoria. Nem poderiam.

Nossos verdadeiros sentimentos são obscuros e sombrios, quase impossíveis de serem saciados. Eles não cabem nos formatos pré-moldados da indústria do amor. Pegue o caso da mulher que matou e destrinchou o marido uns dias atrás. Havia amor ali. Amor na forma de ciúme. Amor próprio. Amor de mãe que temia ser separada da filha. Mas não é disso que a marca de cerveja quer falar no dia dos namorados. A história de Elize Matsunaga precisa de um filme europeu pesado, triste, não comercial, daqueles que nos expulsam da sala de cinema com a mesma força com que mergulham dentro de nós.  

Diante do tamanho das nossas necessidades, e da nossa imensa complexidade, a indústria do amor está fadada a nos desapontar. Ela oferece música para um momento de dor, mas mil músicas são incapazes de nos consolar quando acabamos de ser abandonados. Ela nos dá lindas histórias de amor, mas quem pode com elas quando está coberto por um manto intransponível de medo e tristeza? 

O paradoxo do amor público, industrial, feliz, multiplicado nas redes sociais e nas salas de Multiplex, é que as nossas experiências realmente importantes são incomunicáveis e intransferíveis. Apesar do estardalhaço social, estamos sozinhos frente ao amor. Cabe a cada um de nós encontrá-lo, vivê-lo ou perdê-lo intimamente. É inevitável gemer sozinho no escuro, cercado de silêncio. O pessoal da rosa amarela não estará disponível se você precisar deles.  

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