sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Minha experiência na Igreja Universal do Reino de Deus


Eu estava no sítio de meus avôs. Era 1999. Naquela época eu sempre costumava passar os fins de semana no sítio. Os banhos de barragem, as subidas nos pés de siriguela, nos pés de manga, nas jaqueiras, nos cajuzeiros, o espaço livre para fazer o que bem entendesse, pra brincar com a cachorrada, pra ficar no chiqueiro dos bodes, eram tantas as coisas para ser fazer no sítio que a cidade, para mim, era de somenos em comparação com aquele espaço rural. Um de meus tios chega da cidade falando da inauguração de uma nova Igreja. Sempre fui, desde criança, interessado na religião dos crentes. Fico curioso e pergunto o nome da Igreja, quando soube que era a Universal fico doido para ir embora. Era domingo, e a inauguração seria a noite. À tarde fui para casa.

A Igreja Universal foi inaugurada no antigo cinema da cidade, bem próximo de minha casa. A propósito, uma grande parte dos templos da IURD é em antigos cinemas. Chego já na parte final da reunião. Estava lotado o local. Depois de uma música, o pastor entrega um envelope para na próxima reunião às pessoas levarem uma oferta de dez reais. Na reunião seguinte volto. Era a "Reunião dos Empresários" destinada a todos que queriam sair da miséria e virar um grande empresário, uma pessoa rica, próspera financeiramente.

Uma liturgia estranha para mim. Na infância eu sempre ia para a Assembléia de Deus, única Igreja evangélica na cidade. Lá o culto era movido a muitos hinos, pregações, aleluias, glórias, línguas estranhas. Na Universal era mais simples. Não havia teclado, violão ou bateria. O pastor cantava sozinho as músicas enquanto a gente acompanhava batendo palmas.

Pouco a pouco fui me adaptando naquela Igreja. Sempre estava presente nas reuniões (lá eles não chamam cultos como nas outras Igrejas evangélicas). Quando dei por mim estava envolvido até o pescoço na Universal.

Eu não tinha dinheiro para dar. Mas o pouco que meu pai me dava eu ofertava na Igreja porque Deus tinha que me abençoar, afinal de contas assim dizia na Bíblia. Fui aprendendo que a fé era para ser demonstrada através do sacrifício. No passado, no tempo de Abraão, as pessoas sacrificavam a Deus com animais. No nosso tempo ninguém mata mais animais, o sacrifício hodierno deve ser feito com dinheiro, nosso bem mais precioso. Através da oferta, do dízimo e do sacrifício em dinheiro Deus nos abençoa, Deus está obrigado a abrir as janelas dos céus e derramar bênçãos sem medidas sobre os que a Ele são fiéis.

Era essa a Teologia que fui aprendendo e vivenciando na minha adolescência ainda precoce.

Os rituais para a purificação da casa, como jogar sal em toda a casa, colocar um galho de arruda consagrado em algum local, ungir com óleo os móveis, a carteira, as paredes, tudo isso para afastar os demônios do lar, me ajudavam.

Depois de um tempo me tornei colaborador da Igreja. Era um voluntário. Ajudava nas reuniões, na limpeza, no trabalho em geral da Igreja. Os primeiros calos de minhas mãos não foram por causa das masturbações, mas porque um dia tive, junto com outros colaboradores e obreiros, de fazer a limpeza no quintal do antigo cinema e cortar um pé enorme de acerola. Com o tempo me tornei obreiro. Era um voluntário mais avançado na Igreja. Eu já podia expulsar os demônios das pessoas e fazer outras coisas a mais.

Quando chegava o tempo da Fogueira Santa de Israel, o tempo do sacrifício maior na Igreja, eu já me envolvia para participar. Uma vez o pastor nos ajudou a fazer esse sacrifício. Comprou material para que a gente fizesse desinfetante e fosse vender para cumprir nosso voto-sacrifício para Deus nos abençoar. Sai pelas ruas da cidade, pelos sítios, até pra cidades vizinhas, vendendo desinfetante para a Fogueira Santa. Só para explicar: a Fogueira Santa de Israel não é uma fogueira feita para queimar dinheiro em algum monte na Terra Santa. Você faz um sacrifício, normalmente o menor é de um salário mínimo, escreve num papel que vem junto do envelope seus pedidos a Deus, e esse papel é levado para queimar em Israel. O dinheiro é revertido para ajudar a obra de Deus na terra. Os testemunhos na Rede Aleluia das pessoas pobres, falidas, sem sorte e que ficaram, após ter participado do Sacrifício, ricas, prósperas e cheias de carros, casas e empresas alimentavam a esperança no meu coração e no dos demais membros da Igreja. Deus faz, basta à gente sacrificar!

Depois de um tempo foi aberto um núcleo da Igreja em Canafístula, distrito de Alagoa Grande. No começo eu ia auxiliar outro obreiro nas reuniões de lá. Depois assumi as reuniões. Isso aconteceu com apensa quartoze anos de idade! Detalhe: a gente ia de bicicleta, a Igreja não bancava passagens para obreiros. Depois fomos a Cuitegi, uma cidade vizinha. A gente pegava carona. Uma vez, estava eu e outro obreiro, por volta das sete e tantas da noite, esperando carona na beira da rodovia em Cuitegi. Um senhor vem todo alegre nos socorrer. Durante o trajeto percebi que não se tratava de carona, mas um táxi; assim que chegamos à cidade descemos rápido, agradecemos à carona e nem olhamos para trás. Foi um dos maiores vexames que passei na minha vida.

2002. As eleições chegaram. A Igreja lançou o pastor Fausto Oliveira como candidato a deputado estadual. Para deputado federal a Igreja apoiou o pastor Philemon Rodrigues, que vinha de Minas Gerais já com três mandatos consecutivos na Câmara dos Deputados, mas voltava a Paraíba. Foi que começou a minha desgraça na Universal. Eu sempre fui muito politiqueiro. Inclusive as pessoas já sabiam que eu poderia ser o candidato a vereador da Igreja quando chegasse à idade certa. Mas eu não ia muito com a cara do Philemon. Desde que vi uma reportagem sobre ele na TV Câmara, falando que durante um dia ele mudou de partido quatro vezes, passei a vê-lo como safado. Na mesma época outro pastor era candidato a deputado federal. Esse tinha uma rádio evangélica em João Pessoa e era muito estimado por vários ouvintes na Paraíba, inclusive por mim. Optei por ele. E olha que eu nem votava nessa época, mas já tinha uma posição política firme! O pastor não gostou. Numa tarde de domingo ele reuniu os obreiros, colaboradores e outros membros para que a gente fizesse campanha nas ruas da cidade. E fez questão de citar minha dissidência para Federal. Disse que se fosse para continuar assim era melhor eu sair da Igreja. Na mesma hora fingi que ia ao banheiro, mas mudei de destino e fui direto para casa, para nunca mais voltar. Da mesma forma que tinha entrado num domingo de 1999 naquela Igreja, foi num domingo de agosto de 2002 que sai de lá.

Um comentário:

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