terça-feira, 5 de agosto de 2008

Um texto interessante sobre A Queda de Ricardo Gondim

Mentoria - Pessimismo antropológico.
Ricardo Gondim.


Prezado Diego,

Continuemos. Desejo trabalhar um tema “imexível” da teologia cristã. Embora nem sempre explicitada, a "Queda" é quase que ponto pacífico na maioria das teologias sistemáticas. Este termo, a "Queda", é um pressuposto antropológico na teologia, também chamado de “Pecado Original”.

Considerado essencial para explicar a universalização do mal, o Pecado Original também serve de base para a teologia sacrificial - "Cristo foi crucificado para aplacar a maldição de Deus que repousa sobre a raça humana desde o pecado de Adão".

Diego, tal conceito é quase unanimidade entre os cristãos ocidentais. Questioná-lo não é tarefa fácil, admito. Considera-se que o Pecado Original tenha nascido da pena do gigante Santo Agostinho. Ele cunhou o termo. Quando Pelágio o enfrentou nessa questão, Agostinho ganhou o duelo. Os debates que envolviam liberdade e depravação definiram a teologia desde então. Já ouvi alguém afirmar que depois de Santo Agostinho, tudo o que se escreveu sobre a antropologia cristã não passa de nota de rodapé. Não é preciso dizer que Pelágio desceu no ralo da história como herege e Agostinho virou santo.

Santo Anselmo, alguns anos mais tarde, aprofundou ainda mais o pessimismo antropológico agostiniano. Depois dele, o pecado original foi considerado uma verdade explicitada nos escritos de Paulo - principalmente na Epístola aos Romanos. Lutero o tornou o carro chefe de sua doutrina sobre a graça. E como você sabe, os calvinistas ingleses – os puritanos – levaram o pecado original até às últimas consequências. Deles e dos calvinistas holandeses, nasceu a predestinação dupla que afirma que muitos foram criados por Deus para sofrerem no inferno e poucos para se deliciarem no céu.

Leia o que escreveram os teólogos latino-americanos Juan Luis Segundo, Gustavo Gutierrez, Jose Comblin. Conheça os livros do historiador Jean Delumeau. Sugiro toda a obra do espanhol Andrés Torres Queiruga. Reconheço que entre os protestantes, não acreditar no Pecado Original é uma apostasia digna de fogueira. Você já sabe, quem não se fundamentar no Pecado Original, além de herege, será rotulado de relativista ou liberal.

Contudo, não estamos preocupados com rótulos ou com exílios, certo? Então, deixe-me fazer algumas colocações antes de entrar no debate bíblico (posteriormente vou escrever mais sobre o assunto).

1. O mundo não está desgraçadamente caído. Este planeta não é um espetáculo de horrores. Não vivemos na ante-sala do inferno. Vicissitudes, doenças, acidentes e mortes não são o resultado de vivermos em um mundo torto e maldito. Não, mil vezes não. Nosso mundo é contingencial, espaço onde coexiste a possibilidade da saúde e da doença, dos acidentes e dos livramentos, dos absurdos e da felicidade. Alegrias, risos, festas e beleza se concretizam com as mesmas chances que as balas perdidas, o câncer e os desastres automobilísticos. Não esqueça que, como nos organizamos, pode acontecer mais felicidade ou mais infortúnio. A probabilidade de ser assassinado no Brasil é muito maior que na Inglaterra. Mais crianças morrem antes do primeiro ano de vida na Índia do que na Bélgica. Se acontecerem dois terremotos com a mesma intensidade nos Estados Unidos e no Afeganistão, sugira onde será a pior devastação. Você não se pergunta por que os desastres naturais arrasam primeiro os pobres?

Mas, onde impera a injustiça o direito também pode triunfar; em meio ao ódio, a paz pode florescer. O acaso que produz morte também junta os amantes. Existe estatística que prevê o percentual de crianças nascidas com síndromes graves. Considerar deformidades genéticas como resultado da "Queda" e ainda ter estatística para as ocorrências é nonsense. Não dá para pensar em castigo que obedece as leis da probabilidade!

2. A morte física não aconteceu devido a uma dentada no fruto proibido. Morrer está em todo o universo. Sim, a narrativa do Gênesis descreve a morte. Entendo, porém, que aquela descrição se refere ao preço de assumirmos nossa humanidade, não a uma maldição. A consciência da nossa finitude foi o preço que pagamos quando saimos da irracionalidade. Os animais também sofrem e morrem. Só que eles não se angustiam com a dor ou com a brevidade da vida.

A termodinâmica preconiza que todo sistema (vivo ou inanimado) tende a se desintegrar. Tudo se esfarela, tudo morre. A natureza efêmera não é desdobramento de um pecado. Morrer faz parte da constituição intrínseca da criação. Só Deus é eterno. Se nascemos, vamos morrer. Com os conhecimentos modernos da astronomia, fica difícil imaginar que o colapso de uma estrela – sua morte – que aconteceu há dez bilhões de anos, seja conseqüência do pecado de Adão.

Precisamos repensar o pessimismo antropológico do movimento evangélico. Será que todos os seres humanos já nascem condenados? Os teólogos estão certos quando interpretam que somos “por natureza, filhos da ira de Deus”? Como pode uma pessoa vir ao mundo já culpada, se nem pediu para nascer? A humanidade foi mesmo tão solidária com Adão, que nela não “habita bem algum”, só perversão e pecado?

Li de um famoso evangélico brasileiro, professor de teologia, que o Pecado Original é a doutrina mais atestada pela história. Segundo ele, basta contemplar a hora do recreio de crianças no maternal. Meninos e meninas de um, dois, três anos já se mostram egoístas, maus e mentirosos. De acordo com as deduções do professor, são assim porque herdaram tanto o pecado como a culpa de Adão. Pergunto constrangido: será que a teologia não adoeceu os olhos do professor? Por que ele não consegue enxergar nessas mesmas crianças, alegria, altruísmo e facilidade para perdoar?

Não precisa repetir o otimismo de Russeau; a condição humana não é boa nem má, apenas ambígua. Delumeau afirma que “os seres humanos são capazes de tudo, inclusive fazer o bem”. Então, por que o mal se universalizou? Pelo simples fato de que o bem de igual modo se alastrou. Concordo, sobram exemplos de perversidade no mundo. Contudo, é possível encontrar sinais de bondade, solidariedade e beleza em todas as culturas, lugares e religiões. O mundo ainda não é uma Gothan City, nem uma Sodoma.

Em qualquer época da história foi e será possível achar religiosos, engenheiros, médicos, músicos, lavadeiras e militares fazendo o tanto o bem quanto o mal. O mal ainda não suplantou o bem. Os diques contra a maldade, embora rachados, não foram devassados completamente.

Sugiro que você repense o pressuposto do Pecado Original. Leia extensivamente alguns autores judeus – lembre-se, Jesus foi judeu. Você notará que nenhum teólogo ou rabino considerou o Pecado Original parte da natureza humana devido a Adão. Vale ressaltar, os Evangelhos não registram Cristo ensinando sobre o Pecado Original. Pesquise os teólogos protestantes contemporâneos. Os que se preocupam com uma práxis transformadora da história – teólogos da libertação, por exemplo – já abandonaram essa premissa, faz tempo.

Você sabia que Agostinho e Lutero tentaram explicar como o Pecado Original passa de geração em geração? Certa vez, questionaram Agostinho se o sangue de Cristo purifica as pessoas de todo o pecado. Logicamente o bispo africano respondeu que sim. “Está escrito, o sangue de Cristo não só perdoa como erradica todo pecado”. Replicaram: “se um casal cristão, lavado e remido pelo sangue do Cordeiro gerar um filho, de onde viria o pecado de Adão?”. Agostinho respondeu que o “pecado é transmitido pela relação sexual”. Segundo ele, “não é possível acontecer relação sexual sem concupiscência”. Lutero também repetiu essa mesma tolice.

Amigo, não considere as pessoas como “cães ou porcos”. Todos são filhos e filhas queridos de Deus. Evangelize valorizando a dignidade divina impregnada em todos. Trate o seu semelhante da mesma maneira que Jesus. Ele lidou com gentios, prostitutas, soldados e judeus com extremo carinho. Para ele, todos eram preciosos demais para se perderem. E Deus prova o seu amor, ao enviar Cristo para viver e até morrer, mesmo quando as pessoas se mostravam inimigas. Sabe por quê? Mesmo quando soterrada pela maldade, cada pessoa carrega a Imago Dei, a Imagem de Deus, e essa dádiva não pode se perder. Cristo veio buscar e salvar os esmagados pelo mal para fazer ressurgir a sua glória, impressa nos corações.

Soli Deo Gloria.


site:http://www.ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=104&sg=0&id=1936

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