segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Ele não se decide




Estava sem saber o que dizer, sem saber o que pensar, sem saber como agir diante do fato de ter sido obrigado a reconhecer que sentimentos julgados inexistentes em sua vida estarem tão presentes quanto o desejo de conhecer uma nova pessoa. Além disso, teve que reconhecer um erro que nunca tinha passado em sua cabeça ter cometido.


A conversa com sua amiga da faculdade abriu fendas em sua alma, arranhou a moldura de seu coração, atacou a solidez de seus afetos. Foi como uma teofania. Ela foi como um anjo revelando o que estava escondido dentro dele, sufocando-o, enganando-o sem ele perceber.

Durante todo o caminho para casa, enquanto olhava a paisagem, o verde, as nuvens azuis, alguns animais que pastavam e algumas pessoas que cuidavam de seus roçados, ele pensava o quanto a vida, em determinados instantes e aspectos da sua vida, parece ser injustiça, incoerente, insensata, inexorável.

Muitos de seus amigos de infância, de adolescência, colegas do ensino fundamental e médio já estavam casados, outros divorciados, muitos com filhos, fizeram o que ele sempre teve vontade de fazer e não fez ainda, seja por medo de dar errado, seja por medo de encarar uma cidade grande, desconhecida, estranha, sendo ele mesmo desconhecido e estranho diante de uma multidão frenética, saíram de casa e ser tornaram homens e mulheres donos de suas vidas.

Ao pensar na conversa com sua amiga, ao lembrar dos antigos amigos e colegas, ele caiu em si e viu o quanto era imaturo, criança. Culpa a vida, mas no fundo ele sabe que o único culpado de tudo não está como deseja é ele mesmo. Ele com suas dúvidas existenciais, com seus conflitos de identidade, com seus monstros que tanto o assusta ao mesmo tempo que os alimentam, com seu receio de romper com a lógica que tanto critica, que tanto ojeriza, detesta, mas parece, às vezes, que ela faz parte do jardim de sua vida ao lado dos girassóis, das rosas, das margaridas e, portanto, recebe os mesmos cuidados para se desenvolver que as flores do bem.

Ligou o chuveiro. Deixou que a água banhasse aquele corpo, aparentemente, sem marcas, mas por dentro todo estigmatizado de afetos incompletos, recolhidos, guardados sob o manto do medo. Não agüentou muito tempo em pé. Sentou no chão do banheiro. Aumentou a velocidade do chuveiro. Ritualizou aquele instante. Transformou um banho normal em um batismo de sua vida, como rito para entrar na comunidade espiritual das pessoas amadas, realizadas, completas e sólidas em seus desejos e sentimentos.

A represa de sua alma estourou. As lágrimas jorraram abundantemente de seus olhos, misturando-se com a água, tornando aquele instante mais sagrado ainda.

Depois de alguns minutos levantou-se. Mirou sua imagem refletida no espelho. Os olhos vermelhos, o cabelo desalinhado, a cara de quem tinha chorado tanto o assustou. Pensou na experiência do banho. A sua tentativa de sacralizar tudo aquilo, entretanto, caiu por terra quando o celular anunciou a chegada de um SMS. Sorriu e teve raiva quando viu de quem era. É ambígua a reação dele diante da personagem que enviou a mensagem de texto. Assim como é ambígua a tentativa de esquecê-la concomitantemente ao anseio de conquistá-la.

Saiu do banheiro como uma pessoa normal. Nem parecia que era o mesmo que tinha entrado, que tinha chorado, que tinha ressignificado o seu banho para torná-lo um rito de passagem rumo a uma nova fase de sua vida.

Ele é uma criança ainda. Não sabe o que quer. Fica em cima do muro diante das escolhas necessárias para a sua realização pessoal. Mas um dia ele terá que decidir qual caminho seguir. Ninguém pode entrar no céu desejando está no inferno.

Um comentário:

  1. Tudo muda quando nossa armadura acaba sendo perfurada e o nosso interior sofre com escoriações, desejos não compreendidos, amores não-realizados, segredos inacabáveis.Por isso, digo, ser um ser humano é uma experiência intensa e arduamente difícil, a complexidade de nossas emoções e o peso de determinadas atitudes nossas perfazem nossa existência, ora banhada com culpa e ora banhada por uma intensa paz.Antes viver tudo isso do que morrer, literalmente, por dentro.Abraços Joel, grande postagem! =)

    ResponderExcluir

Você poderá gostar também

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...