quinta-feira, 2 de junho de 2011

Deus em Lady Gaga: um hino aos marginalizados

Se eu já era fã dela, depois desse texto e de outros que li a respeito de Lady Gaga, agora sou mais ainda. 

Nesse tempo de trevas, tempo no qual os sacerdotes de "deus" (uso com "d" minúsculo mesmo, porque a divindade pregada por tantos líderes religiosos, hoje em dia, não é a mesma que eu acredito) vociferam nos púlpitos tradicionais e modernos (TV, Rádios, Sites, Redes Sociais) contra milhões de pessoas que não nasceram heteressexuais, uma pregação carregada de ódio, ira, terror, contrariando os princípios básicos do evangelho de Cristo, ícones como Gaga renova a esperança de dias melhores dentro de mim.

O que muita gente não percebe é que o mesmo discurso utilizado para condenar ao inferno, a uma vida marginalizada, ao ostracismo, os gays nesse tempo, foi o mesmo utilizado para condenar mulheres, índios e negros ao longo da história.  

Ontem, milhares de evangélicos e católicos ocuparam o gramado do Congresso Nacional para protestar contra a criminalização da homofobia e contra o reconhecimento da união estável homoafetiva pelo STF. Eu tenho certeza que se Jesus tivesse nascido nesse século, Silas Malafaia, Dom Aldo Pagotto, Júlio Severo e tantas outras vozes, teriam a mesma atitude que os fariseus tiverem no início da Era Cristã. As mesmas vozes que proclamam nas ruas contra direitos básicos para os LGBTs, seriam as mesmas que escolheram soltar Barrabás a Jesus Cristo. E acredito que a presidente Dilma seria Pilatos nessa história toda.

Lady Gaga consegue, através de seu jeito inédito e de suas músicas sensacionais, levar a mensagem divina a muitos adolescentes, jovens e adultos que se sentem excluídos pelas instituições religiosas oficiais. Vamos ao texto: 

As músicas de Lady Gaga são um hino para os marginalizados, na opinião de Helen Lee, especialista em teologia e comunicação da Fordham University, nos EUA. O artigo foi publicado no sítio Busted Halo, revista eletrônica dos padres paulinos dos Estados Unidos, 11-02-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto

Eis o texto.

O single de Lady Gaga Born This Way [assista ao clipe aqui] é um hino ao diferente. A música oferece palavras de encorajamento a todos que estão às margens da sociedade, incluindo homossexuais, membros de minorias raciais e até mesmo os "deficientes". Ela afirma que "Deus não comete erros" e depois acrescenta:
Se as deficiências da vida [Whether life’s disabilities]
deixaram você desamparado, assediado ou provocado [left you outcast, bullied or teased]
regozije e ame-se hoje [rejoice and love yourself today]
Porque, baby, você nasceu assim [’cause baby, you were born this way].
Gaga está espalhando as boas novas de Jesus Cristo, seja intencionalmente ou não. Suas opiniões sobre o celibato, sobre a força pessoal e a individualidade certamente são louváveis. E muito mais convincente é o que ela tem a dizer sobre a natureza humana e o sofrimento humano.

Ao contrário de Madonna, a quem ela é muitas vezes comparada, Lady Gaga parece compreender que a natureza humana não é redutível ao sexo. Os seres humanos são complicados, e Gaga capta isso. Podemos ser feios – é verdade –, mas Gaga entende que a beleza humana só tem sentido em contraste com a feiura humana. Então, sim, somos monstros (decaídos), mas, como diz a canção, "nascemos para sobreviver" (nascidos para a vida eterna).

Pelo fato de a Lady Gaga ser capaz de abraçar o feio e, ao fazer isso, abraçar o bonito, ela tem uma sensibilidade e um apreço pelo inevitável sofrimento humano. Ela reconhece que as pessoas lutam constantemente com a sua natureza decaída, incertas de seu potencial para serem boas. Ela reconhece que a vida deixa as pessoas para baixo. E, assim como ela sempre impele seus monstrinhos [como ela chama seus fãs] a amar a si mesmos, ela acrescenta (em Born This Way):
Seja prudente [Give yourself prudence]
e ame seus amigos [and love your friends].
A partir da sua atenção ao sofrimento humano, ela me lembra do tema cristão da união dos sofrimentos pessoais aos sofrimentos de Cristo. Gaga está exigindo que os marginalizados sejam visto como valiosos, bonitos, por serem pessoas como Cristo.

Lady Gaga, sem dúvida, é excêntrica. Ela pode ser grotesca. Ela pode ser vulgar. Mas é um modelo de virtudes cristãs, precisamente porque parece improvável que ela o seja. Ela tem o potencial de introduzir Deus a tantas pessoas, precisamente porque não parece que ela esteja fazendo isso. Lady Gaga está dizendo a um público enorme e dedicado que Deus o ama.


PS: meu blog tá ficando muito militante, né? Mas sempre escrevi sobre minhas inquietações. E nada mais me inquieta, atualmente, do que essa onda homofóbica que me deparo todos os dias, em vários lugares, quase todas as horas.

3 comentários:

  1. Será que, como o próprio autor diz, tudo isso é intencional ou será que sequer estas mensagens estão contidas nas canções dela?
    Vou assistir o clipe agora pra tirar minhas próprias conclusões.
    De qualquer forma, o texto é interessante e a análise do cara mais interessante ainda. Sendo ou não sendo verdade, Lady Gaga é uma artista do caramba e ao que indica, uma artista bem a frente do seu tempo.
    Carregado o video, vou assistir o clipe agora.

    Ah, mais uma vez parabéns pelo blog. E em relação à sua militância, isso é normal. Afinal, o que é um homem sem uma causa?

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  2. Ah, esse primeiro comentário aí foi meu. É que entrei pelo notebook de Raphael e ele estava conectado com a conta da turma.

    hehehe

    Falou

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  3. Querido Joel, não se preocupe com o teor ou suas inquietações militantes. Vc, como historiador, sabe como o discurso, em suas relações de poder/saber fazem funcionar as maquinarias de guerras sociais. Gostaria de sugerir um novo ponto de problematização: por que eles (nós) somos marginalizados? Instituir esse lugar de margem pressupõe que existe um lugar de centro: seja uma leitura correta do divino, seja uma prática correta da sexualidade. O centro n existe, isso foi invenção daqueles q se arrogam o direito da centralidade. É necessário implodir com essa centralidade, esvaziá-la de sentido, ironizar com essa cultura falocêntrica e instituir novos espaços para aqueles nas suas maneiras de ser-viver-pensar-crer irrompem, não nas margens, mas nos pontos nodais de toda a rede social. A cultura pop é isso, bem como sua rainha, a possibilidade de ver o mundo não mais no binarismo centro x margem, mas como a vivência do pastiche, da bricolagem, da diversidade. Poker face neles. Como diz o guru da militância gay, Luiz Mott, somos muitos e estamos em todos os lugares. E eu sei q o lugar da margem não me comporta, pq nunca acreditei na centralidade do "normal", do "sadio", do "aceitável" - não corroboro e legitimo com essa centralidade, pois como sujeito ético, acho a moral do centro deplorável, panóptica e carente de poética.

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