quinta-feira, 19 de abril de 2012

Quando o tempo é inerte...



Finjo não saber que o tempo passa logo
Finjo pra tentar conter a minha dor
Finjo não notar, mas toda noite choro
Choro de saudade do que já se foi

Eita, ainda penso muito no  (nosso?) lance mal resolvido. Ainda sonho com o dia que você vai chegar e abrir a porta do meu quarto... Não consegui resolver essa lide de minha alma. Tentei. Lutei. Mas tudo foi como remar contra a maré.

Ah que bom seria se o tempo voltasse
Pra fazer tudo de novo, meu amor!
É como se a vida nunca acabasse
Reviver os passos seja como for

Talvez eu não quisesse voltar ao passado. Talvez fosse melhor eu nunca ter te conhecido. Talvez minha vida, sem ter esbarrado com você, fosse bem melhor... Talvez, talvez, talvez... Nunca irei saber ao certo. Mas é foda o que sinto ainda.

Lembrar do que foi bom
Mas também quero tropeçar nas mesmas pedras do caminho, refazer a mesma rota que o me coração traçou

No fundo sinto que valeu a pena, não obstante meu sofrimento ser superior e mais duradouro – até hoje?! – que o prazer vivido juntos... Contudo, acho (não tenho certeza!) que se diante de mim eu tivesse uma oportunidade de te esquecer ou voltar a viver tudo como antes, talvez (sempre um talvez!) eu aceitasse reviver...

Deixa eu voltar quero voltar, entrar na máquina do tempo é só ilusão eu sei, quero voltar quero viver o mesmo sonho e de novo encontrar você!

__________________________________________


Essas leseiras surgiram quando eu escutava essa música de Flávio  Venturini. A canção é linda. Ótima para viver uma dor de cotovelo boa, daquelas que arrancam lágrimas, que deixa a gente irado, que meche com a alma... De preferência com uma boa bebida também.





Às vezes, chego a pensar que aquela conversa de que o tempo cura tudo é pura ilusão. Conheço pessoas que sofrem, depois de muitos anos, de décadas, pela perda um ente querido. Conheço pessoas que se divorciaram há anos, mesmo assim nunca conseguiram se envolver afetivamente com outra pessoa. Acho que é melhor aprender a conviver com essa situação do que se esforçar para que ela acabe... 


sábado, 28 de janeiro de 2012

Um ano longe do armário



Ia deixar sem registrar essa data. Mas pensei durante toda a semana e durante todo esse dia. A liberdade não tem preço. 


Conhecer quem de fato ama você (amigos de verdade e familiares que você pode contar) é a melhor coisa do mundo. Poder viver sem medo, sem temor (apesar de tantos homofóbicos por aí), ser você mesmo é maravilhoso.


Sair das sombras, das trevas, do armário que aprisiona e sufoca todos e todas que fogem aquilo que uma sociedade heteronormativa diz ser nomal é sem comparação. 


Uma professora uma vez me disse que sair do armário é uma experiência libertadora. Um ano depois eu confirmo isso. Há um ano, dia 27 de Janeiro, meu armário era implodido.


Nesse período conheci pessoas maravilhosas, que me ajudaram em vários momentos. Por algum tempo pensei que ia morrer, que ia sucumbir a tudo que enfrentei.


O primeiro semestre na faculdade foi terrível. Mal eu prestava atenção nas aulas. Alguns colegas notaram uma diferença, mas eu não me sentia a vontade para abrir meu coração. A cada instante eu pensava quando ia deixar a faculdade.


 A morte para mim não era temida. Era bem vinda. Durante muito tempo eu quis morrer. Não pensava em me matar, como antes, mas se a morte viesse me buscar seria um alívio diante de tanta dor que passei.


"Por que, culturalmente, nós nos sentimos mais confortáveis vendo dois homens segurando armas do que dando as mãos?" perguntou Ernest Gaines. "A sociedade não gosta, o povo acha estranho", canta Cássia Eller.


No segundo semestre tentei recuperar o tempo perdido. Assim que rompeu o primeiro de julho eu disse pra mim mesmo que aquela era uma nova fase na minha vida. E foi.

Voltei a ler com força. A estudar mais ainda. Tentei duas seleções de mestrado em história, não logrei êxito, mas a experiência foi valiosa. Participei das conferências LGBT (local em Guarabira, estadual em João Pessoa e nacional em Brasília). Conheci muita gente. Comecei a reescrever minha história.

O que achei legal foi que minha saída do armário coincidiu com o ano que o judiciário brasileiro, através do STF, reconheceu a união estável entre homossexuais e o STJ reconheceu a possibilidade jurídica do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Nunca antes a TV Brasileira abordou tanto a questão LGBT nas novelas, debates. Também foi o ano que o discurso homofóbico mais forte ficou no Congresso Nacional, o ano que mais matou lésbicas, gays e travestis no Brasil.

Passei um tempo para reconstruir uma nova vida, mas hoje garanto que, se não sou completamente feliz, por não ter realizado meus sonhos ainda, estou a caminho. Muita coisa sei que vou enfrentar. Mas o principal já enfrentei que foi a minha família. O resto é de somenos.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Sexta economia. E daí?

No fim do ano passado, muitos brasileiros festejaram o nosso país ter sido elevado, segundo o jornal britânico The Guardian, a sexta maior economia do mundo, superando o Reino Unido. Não vou negar a minha alegria, mas fui bem modesto com minha excitação e comecei a pensar sobre o nosso crescimento econômico. Infelizmente, a realidade social brasileira está muito aquém de sua posição econômica. Coloquei no Facebook um comentário a esse respeito. Um amigo virtual, que mora há anos na Inglaterra, disse “grande coisa”.


Os indicadores sociais brasileiros são uma vergonha. Quando se comparam os números brasileiros relacionados à saúde, educação e inovação com os de outras nações, o país continua na rabeira, perdendo para vizinhos, como Chile e Argentina, ou nações do leste europeu, como Estônia e Eslováquia. Meu amigo virtual disse mais ainda: “a Inglaterra perdeu a posição pro Brasil, mas aqui não existem mendigos nas ruas, escolas de má qualidade, os hospitais públicos fazem inveja a qualquer hospital privado do Brasil”.


Não se podem negar os avanços ocorridos nos últimos anos no país. Mas muita coisa precisa ser feita. Temos muito que avançar. O Brasil possui um sistema público de saúde único, uma vez que nenhum país, com mais de 100 milhões de habitantes, possui algo parecido. Mas o SUS precisa melhorar. Muitas pessoas passam meses pra conseguir uma cirurgia. Os hospitais sempre super lotados. Cidadãos morrem nas filas, esperando atendimento médico.


Na área da educação, muitos países do mundo erradicaram o analfabetismo há muitos e muitos anos. Nós ainda temos milhões de pessoas que não sabem ler e nem escrever o próprio nome! Outros milhões lêem um texto simples, mas não compreendem nada. Precisamos investir pesado na educação básica, começando do ensino infantil, muitas vezes deixado sem a devida atenção. Que nossos adolescentes e jovens cheguem ao ensino médio, depois de ter passado por um ensino fundamental bem feito, preparados para os desafios da nova fase escolar. Infelizmente, o que se observa é que o ensino médio em quase nada se diferencia do fundamental.


Como o espaço é pequeno, vou ficar apenas nesses dois aspectos da realidade brasileira, a saúde e a educação, em outra oportunidade vamos abordar a violência, a corrupção e a miséria ainda bastante presente no Brasil. É fundamental, portanto, que o crescimento econômico seja acompanhado de crescimento do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). De que adianta ser a sexta economia do mundo, passando vários países europeus, se temos índices de desenvolvimento humano comparáveis a países africanos? Quando os índices sociais estiverem no mesmo patamar que os econômicos, aí sim teremos motivos fortes pra comemorar.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Educação de qualidade! Quando?


Dizer que a educação é o caminho para qualquer país se desenvolver com qualidade virou lugar comum. Políticos, empresários, professores, estudantes, organizações da sociedade civil, enfim, todas as pessoas e entidades que direta ou indiretamente estão envolvidas com a educação falam a todo tempo sobre isso.

O exemplo da Coréia do Sul é sempre citado para fundamentar o discurso da educação enquanto meio para o crescimento de uma nação. Em 1958, Coréia do Sul e Gana tinham o mesmo Produto Interno Bruto (PIB) per capita. Na década de 60, o país era um dos mais pobres do mundo, destroçado por uma guerra que destruiu 25% da riqueza nacional e matou 5% da população civil. Hoje, o país tem um PIB per capita quase três vezes superior ao brasileiro. Como a Coréia do Sul conseguiu isso? Investindo pesado em educação.

O Ensino Fundamental no Brasil foi praticamente universalizado. O desafio agora é fazer o mesmo com o Ensino Médio. Mesmo assim, o analfabetismo no Brasil continua grande. Muitos programas já foram lançados por vários governos. Muito dinheiro público investido. Contudo, pouca coisa mudou. Conheço pessoas que já passaram por vários programas de alfabetização e ainda assim não conseguem ler ou escrever.

O Ensino Superior foi bastante expandido nos últimos anos. Mesmo assim continuamos atrasados. Apenas 11% dos jovens entre 18 e 24 anos têm acesso ao ensino superior no Brasil. Na América Latina e Caribe, o índice é em torno de 32%. Já a Coréia se aproxima da universalização do ensino superior, com mais de 80% dos jovens matriculados em algum curso pós-secundário.

A luta agora é para que 10% do PIB sejam destinados para a educação. Nada mais justo. Mas tenho receio de o quanto desses recursos não será desviado por gestores nada comprometidos com a coisa pública e em especial com a educação.  A corrupção é uma praga que assola o país de norte a sul, de leste a oeste, envolvendo pessoas de todos os partidos, seja de direita, centro ou esquerda.

O senador Cristovão Buarque (PDT – DF) apresentou um projeto que obriga os filhos dos políticos ocupantes de cargos eletivos a estudarem em escolas públicas. Óbvio que essa proposta nunca será aprovada. Mas, penso que a sociedade deveria se mobilizar para a sua aprovação. Só assim a educação iria mudar. E penso que os políticos deveriam ser obrigados também a usar os hospitais públicos e sentir na pele o que milhões de brasileiros sentem todos os dias com a falta de atendimento médico adequado.

O Brasil só terá uma educação pública de qualidade, da mesma forma que existe em vários países do mundo, quando o neto de um ano da presidenta Dilma Rousseff, chegar à idade escolar, e for estudar numa escola pública do mesmo jeito que o filho de um trabalhador assalariado. Quando isso acontecer o Brasil terá avançado e se desenvolvido.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O “Girassol” de Alagoinha





O “Girassol” de Alagoinha *

Da mesma forma que um Girassol,

Ele esquadrinha onde está a luz.

Esta busca que parece interminável, incansável e íngreme. 

Pelo brilho do seu coração.

Em certos momentos chegou a encontrar,

Mas eram satélites e não astros.

E com o tempo, a luz se dissipou no espaço.

Hoje, nada mais são do que simples reminiscências.

Como uma águia, voando cada vez mais alto,

Ele continua sua busca.

Ela pode está submersa e dormindo, esperando seu olhar,

Sonhando com o mar.

Este mesmo mar que faz o “Girassol” olvidar, por um instante,

De tudo e de todos.

Que o impulsiona a seguir em frente, olhando em direção ao Sol.

Ele conhece o segredo do mar, 

A sua imensidão o aconchega e tranqüiliza. 

Ao contemplar as ondas beijando os rochedos.

Esta imagem o faz regressar. 

E quando se volta,

Seus olhos verdadeiros e sensíveis fitam 

Em uma flor, que para ele tem um espetacular sentido.

Um imponente “Girassol”,

No mesmo instante vem em sua mente, 

Esperança, Vida e Alegria.

Sua relação é tão forte,

Que se confundem um com o outro.

Só mesmo o coração para entender, a relação entre 

Luz, Mar e Girassol.


* Por - Wagno Almeida Lira (04/01/2012)

PS: Recebi essa poesia de meu amigo Wagno (Facebook). Achei linda. Cada vez que leio eu me emociono. 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

A escola e o bullying

A escola é uma instituição fundamental na construção de nossas identidades pessoais. Os anos passados, da infância à juventude, no espaço escolar, marcam para sempre a vida dos estudantes. Ter uma escola aberta à diversidade, ao respeito, à pluralidade é de suma importância na construção do cidadão do futuro.

 

Diante disso, a violência e insultos no lugar do respeito, aprendizagem e brincadeiras, no espaço de ensino por excelência, destoa de seus propósitos vitais. Essa realidade é vivenciada por centenas de crianças e adolescentes vítimas de bullying nas escolas, ambientes que têm como dever a proteção e a formação cidadã.

 

O bullying “se refere a todas as formas de atitudes agressivas, verbais ou físicas, intencionais e repetitivas, que ocorrem sem motivação evidente e são exercidas por um ou mais indivíduos, causando dor e angústia, com o objetivo de intimidar ou agredir outra pessoa sem ter a possibilidade ou capacidade de se defender, sendo realizadas dentro de uma relação desigual de forças ou poder”.

 

O pior de tudo, além da agressão sofrida por alunos, seja pela cor, orientação sexual, classe social, forma física, religião ou qualquer outro fator que contribua para o bullying escolar, é o despreparo dos professores e professoras para lidarem com a situação. Alguns silenciam, outros colaboram, através das risadas, com a violência escolar.

 

Segundo a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), a educação, visa o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Além disso, o ensino deve ser ministrado com base no respeito à liberdade e apreço à tolerância. Ou seja, a educação oferecida nas escolas, deve propiciar à criança, ao adolescente e ao jovem, as condições necessárias para o crescimento intelectual, emocional e físico dessas pessoas.

 

Portanto, se queremos ter no futuro pessoas que saibam respeitar o outro, o diferente, porém semelhante na humanidade comum, se queremos uma sociedade menos violenta, menos agressiva, devemos começar pela base de tudo, ou seja, a educação, cortando os males que infestam o ambiente escolar, como o bullying, capacitando professores (as) e trabalhando com um ensino que promova uma cultura de paz nas escolas

sábado, 19 de novembro de 2011

Diante do novo...



Preciso ousar. Experimentar algo não imaginado. Permitir que sentimentos novos tomem conta de mim. Me permitir viver algo ainda não sonhado.

E se não der certo? A incerteza sempre existe. Que graça teria a vida se tivéssemos todas as certezas? Mesmo assim, é humano querer saber o tipo de solo que se vai pisar...

O desconhecimento perturba. A novidade pode desestabilizar meu eu... Tudo que é conhecido é seguro. Pode não ser bom, mas a gente sabe o que esperar. Já o novo...

Mas e se não der certo? A pergunta persiste. A resposta inexiste. Mesmo assim, vou tentar . Não custa nada. O máximo que pode ocorrer é meu coração ficar coberto de feridas. Contudo, já tenho experiências pretéritas que vão me ajudar caso as dores superem o prazer. 

As dores afetivas, quando no auge, parece infindas. Mas passam...

Preciso romper com as verdades estabelecidas no meu ser. Quebrar os conceitos cristalizados nos meus sentimentos. Ir além do lugar cómodo que vivo.

E o horizonte se abre cheio de expectativas. O novo me fascina e me amedronta. Mas vou seguir em frente. Seja o que Deus quiser



segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Quem não é político?



É comum muita gente falar que não gosta de política, que não é política e que nunca será. O repúdio a atividade política representativa é legítimo haja vista a forma espúria que nossos representantes, seja no executivo ou no legislativo, atuam. Mas será que o repúdio à Política vale mesmo a pena?

Primeiramente, é preciso diferenciar a Política, com P maiúsculo, da política praticada por vereadores, prefeitos, deputados e todos aqueles eleitos a cada dois anos para governar ou legislar para a população.

As pessoas são sociais por natureza. Minha existência depende da existência do outro. Ninguém vive sozinho no mundo. Precisamos do outro para ter a humanidade garantida. E nessa relação do eu com o outro se forma as relações sociais e políticas.

Agassiz de Almeida Filho, paraibano e um dos melhores constitucionalistas do Brasil, sempre coloca os significados que a Política têm. Um primeiro significado enxerga a política como organização da convivência comunitária. Como falei acima, precisamos do outro para existir e nessa dependência criamos relações sociais e políticas. A partir disso, necessitamos de organizar a nossa vida em comunidade para vivermos bem e em paz uns com os outros. Esse é o primeiro entendimento de política.

Uma segunda compreensão da política está relacionada ao poder. Para a grande maioria das pessoas política é sinônimo de poder. Poder entendido na sua acepção mais comum, ou seja, como mando, ordem, execução... Mas o próprio poder vai além desse entendimento vulgar, como bem mostrou Michel Foucault.

De todo modo, à política entendida como expressão do poder enoja as pessoas devido à corrupção, aos desmandos, aos desvios do dinheiro público, a pouca honestidade de todos que exercem, em nome do povo, como diz a Constituição Federal, o poder político. Na verdade isso não é política, mas sim politicagem.

Mas será que a inércia diante dessa política praticada no Brasil vale a pena? Não é melhor tentarmos reinventar a forma de fazer política e de exercer o poder, a partir da perspectiva da política como organização do espaço comunitário?

João Ubaldo Ribeiro certa vez disse que todo mundo é político. Até quem diz que não é político, que prefere não votar, não opinar, não fazer nada diante do espaço público é político. Como assim? Quando não ligamos pra nada na vida política terminamos assumindo uma atitude conservadora, ou seja, estamos dizendo que tudo está bem e que, portanto, deve continuar, uma vez que a nossa omissão só favorece que está no exercício atual do poder.

Enfim, não tem como fugir da vida pública, da Política. Em vez de só reclamarmos ou ficamos inertes, não é melhor pensarmos em formas alternativas de organizar nossa vida comunitária, nossa cidade, estado e país? Não é preciso ser filiado a algum partido político para pensar soluções para os problemas que nos atingem coletivamente. Só basta ser sujeito político. E todo ser humano, enquanto ser social, é político.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Saindo do armário para entrar na subcidadania? Uma reflexão sobre a cidadania numa sociedade heteronormativa


O Brasil se constitui como Estado Democrático de Direito que tem como fundamentos, dentre outros, a dignidade da pessoa humana e o pluralismo político. Um dos objetivos fundamentais, segundo a nossa Carta Maior, é promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Na prática, o texto constitucional não se concretiza. Além das enormes desigualdades sociais e regionais, a diversidade sexual, ainda, constitui óbice a direitos essenciais das pessoas. O Estado brasileiro trata diferentemente seus cidadãos com base no sexo, o que contraria expressamente seus princípios fundamentais.

Um conceito que ajuda a entender essa realidade é o de heteronormatividade que expressa às expectativas, as demandas e as obrigações sociais que derivam do pressuposto da heterossexualidade como natural e, portanto, fundamento da sociedade. Pela lógica da heteronormatividade, todas as pessoas devem ser heterossexuais e todos os bens produzidos pela sociedade, sejam eles materiais ou simbólicos, são destinados para quem vive segundo seus preceitos.

Os direitos fundamentais se referem aqueles direitos sem os quais o ser humano, se não os tiver, não se realiza completamente. Na perspectiva liberal, seriam esses direitos à liberdade, à propriedade, igualdade formal e segurança jurídica. Mais adiante, com as mudanças ocorridas na sociedade ocidental, sobretudo a partir das mudanças advindas da industrialização, novas necessidades foram surgindo, com isso novos direitos foram gestados, não sem muita luta política, como o direito à educação, à saúde, à previdência, ao um ambiente saudável, dentre outros. 


A sociedade mudou muito. Ocorreram avanços em vários aspectos. Até bem recentemente, se comparado com a história milenar de exclusão, era impensável ver uma mulher no mundo público. O direito foi, por muito tempo, destinado aos homens. Basta lembrar o fim que levou Olympe de Gouges, na França revolucionária, quando pensou numa Declaração de Direitos da Mulher e da Cidadã. Apesar da assimetria de gênero ainda ser uma triste realidade no Brasil, ninguém mais defende, pelo menos publicamente, a violência contra a mulher ou a sua não inserção na esfera pública.

Conquanto todas as mudanças ocorridas no campo do direito, seja no aspecto político, social ou mesmo de gênero, homens e mulheres que contrariam à heternormatividade continuam a serem tratados de forma discriminatória e desigual formal e materialmente na lei. Ora, se os direitos fundamentais são direitos sem os quais o ser humano, se não os tiver, não se realiza completamente, como explicar que a sexualidade de algumas pessoas ainda obsta a concretização desses direitos? Daniel Borrilho disse que a homossexualidade permanece um obstáculo a plena realização de direitos.

Numa sociedade pluralista, como a brasileira, todas as pessoas, com todas as suas diferenças, sejam elas religiosas, políticas, de cor, idade, sexo ou de orientação sexual, deveriam ser contempladas pelo ordenamento jurídico nacional. Infelizmente não é.

Apesar de avanços recentes na jurisprudência, sobretudo o reconhecimento da união estável entre homossexuais, a legislação trata desigualmente indivíduos que não são heterossexuais, não para fazer a justiça, como pensou Rui Barbosa em sua “Oração aos Moços”, mas para obstaculizar direitos essenciais, como o casamento civil, a adoção e a criminalização da homofobia.

Para Maria Berenice Dias, sem liberdade sexual o indivíduo não se realiza, tal como ocorre quando lhe faltam qualquer outra das chamadas liberdades ou direitos fundamentais. Até mesmo essa liberdade é negada, uma vez que, em vários lugares, a manifestação pública de afeto entre indivíduos do mesmo sexo pode acabar em violência grave, indo até a morte, com a mídia tem mostrado constantemente. A propósito, o Brasil, apesar de ter a maior Parada da Diversidade Sexual do mundo, também, é o país onde mais gays, lésbicas, bissexuais e transgênicos são assassinadas.

Sair do armário é uma expressão usada para se referir aos não heterossexuais que decidiram declarar sua orientação sexual. Mas muitos preferem ficar nas sombras, em guetos, porque sair do armário implica enfrentar o preconceito e a discriminação familiar, social e até jurídica. De certa forma é entrar na subcidadania, uma vez que mesmo tendo os mesmos deveres que homens e mulheres heterossexuais, não encontram os mesmos direitos disponíveis na Legislação.

O Brasil só será realmente um Estado Democrático de Direito quando todos seus cidadãos sejam tratados iguais formal e materialmente, sem quaisquer tipos de preconceitos e discriminação, incluindo nesse rol, a orientação sexual.

Também publicado no blog de Kiko Riaze

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Uma cicatriz que sempre se abre



Não entendo o motivo da vida, vezenquando, me trazer sentimentos passados. Afetos que foram fortes durante um determinado período, que tiveram início, meio e fim, me assaltam, me fragilizam, me angustiam.

Existe uma eterna saudade que nunca passa. Sempre fica aquele desejo de repetir várias vezes aqueles momentos mágicos vividos a dois. Em alguns instantes desaparece. Em outros voltam. E quando voltam vem com tudo, destruindo certezas, desestabilizando emoções, como se fosse para recuperar o tempo perdido que ficou guardado no meu interior.

São feridas mal cicatrizadas. O processo de reparo na lesão afetiva é sempre incerto. Quando penso que tudo foi cicatrizado, que existe a marca, mas sem nenhuma dor, eis que surge, de repente, a dor. Dor da perda mal explicada. Dor do sentimento recolhido no armário do meu coração.

Assim que sinto a dor, o sangue, da mesma forma que uma represa de água quando estoura, sai com fúria, destruindo tudo que existem pela frente. Nesse momento choro. Já me contive durante muito tempo para expressar meus sentimentos, mas aprendi que reprimi-lo só piora as coisas.

Deixo o sangue escorrer. Deixo a saudade envolver-me por completo. E fico contemplando o ausente que se faz presente em meus pensamentos.

Apesar de minha vulnerabilidade, consigo ser dono de mim, me levanto, tomo um banho frio, e permito que as águas me lavem.

Saio mais aliviado. O sangue já estancou. Olho para meu coração. A cicatriz começa a forma-se novamente. Toco nela. Está sólida. Sorrio de felicidade. Tudo passou. Só queria que ela não se abrisse mais... Mas esse reparo na minha alma nunca é bem feito. Só espero que dessa vez a cicatriz demore a romper.

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