sábado, 10 de novembro de 2007

O inferno da mãe de Renan

Li essa matéria no site da revista Época. Achei interessante e posto no meu blog. Nela fica claro o quão a amor de mãe é importante.




Dona Ivanilda, aposentada com um salário mínimo, chora ao falar do filho e toma remédio para dormir

Mariana Sanches


MÃE É MÃE
Ivanilda e sua casa em Murici (de fachada branca). Ela passou a ler jornal para acompanhar as acusações contra o filho
“Tenho 23 netos”, diz Ivanilda Calheiros, enquanto se recosta na cadeira de plástico, os olhos azuis fixos nas galinhas-d’angola que cria no quintal. Ivanilda esqueceu-se de incluir na conta a pequena Maria Catharina, filha de Renan Calheiros com Mônica Veloso. Embora a neta já tenha 3 anos de idade, ela é ainda uma novidade. Ivanilda descobriu sua existência há pouco mais de cinco meses. Na ocasião, a imprensa denunciou que um lobista da empreiteira Mendes Júnior pagava a pensão alimentícia à menina, fruto de uma relação extraconjugal do presidente licenciado do Senado com a jornalista morena e bonita que posou nua para uma revista masculina. Ivanilda não conhece Maria Catharina, estopim da crise política que levou seu filho mais velho a se licenciar do cargo. Nem mesmo fotos viu. “Ouvi falar que ela é linda. Você já viu?”, diz, ávida por informações.

O pagamento da pensão da filha por um lobista foi só a primeira das denúncias contra Renan Calheiros, que ainda enfrenta outras três representações no Senado. Na semana passada, Renan retornou ao Senado, depois de dez dias de licença médica. Desde que começaram as acusações contra o filho, Ivanilda só dorme ao amanhecer. “Eu passo a noite inteira acordada, com a televisão ligada, assistindo à TV Senado e aos canais de notícia”, afirma. Nos últimos dias precisou tomar remédio para que o sono viesse.

O hábito de ler jornais, que nunca teve, virou quase uma obrigação. Ivanilda debruça-se sobre eles com afinco incomum para quem cursou só até a 4a série do ensino fundamental. Nas páginas dos periódicos tenta encontrar explicações para o quebra-cabeça de sua família. Aposentada com salário mínimo, Ivanilda parece não entender por que o filho se tornou vilão nacional de uma hora para outra.

Hospitaleira, manda logo passar um café fresco para a visita. A alagoana nascida em Murici, cidade de 23 mil habitantes a 44 quilômetros de Maceió, aparenta ter mais do que os 73 anos registrados na carteira de identidade. Tem o rosto vincado por rugas, e as costas curvadas acentuam sua estatura baixa, não mais do que 1 metro e meio. O único enfeite é o par de alianças – uma sua e outra do falecido – na mão esquerda. Usa chinelo de dedo e um vestido preto e simples com miúdos corações em branco. Na casa de Ivanilda, é um constante entra-e-sai de crianças, mulheres, homens e velhos segurando copos d’água, nacos de pão ou pratos de arroz e feijão. Ivanilda cumprimenta a todos. São vizinhos que freqüentam a casa há 35 anos, desde que a família Calheiros se mudou para lá.

Na casa de Ivanilda, não há forro no teto. Apesar disso, é a maior e a mais bonita na rua de moradias pobres, que parecem se apoiar umas às outras para não cair. Foi construída aos poucos, sendo ampliada conforme a família aumentava. Foram dez filhos com o marido, Olavo Calheiros, dos quais oito são vivos. Aos 21 anos, deu à luz em casa o primogênito Renan, nascido de parto normal sem sobressaltos. A partir daí, passaria a cozinhar panelas e panelas de arroz, feijão e carne todos os dias para alimentar a s prole. Quatro se tornariam políticos, três com mandato no Congresso Nacional. Quando a comida era servida, Ivanilda deixava os filhos e o marido na sala de jantar e ia comer na cozinha, junto com as empregadas. Era o costume da família tradicional nordestina.

Enquanto se ocupava da casa, o marido providenciava o sustento negociando bois e mercadorias na mercearia que tinha em uma das usinas de cana-de-açúcar da região. Mas a vocação de Olavo era a política, afirma Ivanilda. “Os filhos acabaram sofrendo a influência do pai”, diz. Olavo Calheiros foi vereador e prefeito de Murici. De acordo com a vizinhança, o pai de Renan chamava todo mundo de primo e recebia qualquer um em casa para tomar café. Era o goleiro do time de futebol da cidade. Troféus esportivos locais ocupam toda a parede da sala de Ivanilda. “Meu pai era um homem tão honrado que comprava boi só com a palavra”, diz Remi Calheiros, filho do casal e ex-prefeito de Murici. Embora fosse exímio comerciante e político talentoso, Olavo não enriqueceu. Deixou à mulher e aos oito filhos apenas a casa de Murici e uma fazenda de 716 hectares, capaz de sustentá-los sem luxo. Já Renan teve mais sucesso: do Fusca verde, seu único patrimônio em 1978, cujas prestações eram pagas pelo pai, passou a declarar em bens, no Imposto de Renda em 2006, R$ 1,7 milhão.


RETORNO
Renan chega a seu gabinete no Senado, depois de dez dias de licença médica. Inspirado no pai, ele virou político
A profusão de notícias sobre as supostas falcatruas de seu filho não a convence. “É coisa de gente que tem inveja daquela cadeira que ele ocupa, do cargo importante que tem”, diz, com orgulho, referindo-se à presidência do Senado. Para ela, coração de mãe não se engana, e seu filho é inocente. Vizinhos, parentes e amigos antigos se revezam, à mesa da sala da casa de Murici, para defender Renan. “Se eu fosse senador daria para minha mãe uma casa muito maior do que esta”, diz um jovem que acompanha a discussão. Um senhor desdentado e aparentemente alcoolizado pede a palavra e diz que, pela lógica, Renan não pode ser culpado. Pelo menos 20 pessoas circulam pela casa em duas horas. Aliados e adversários concordam que o escândalo não afetou a popularidade de Renan. O carisma do falecido pai e a bondade da mãe foram fundamentais para que ele mantivesse uma boa imagem em Murici.

Para Ivanilda, Renan vive hoje um “calvário público, uma injustiça”: “Sempre foi um homem bom, ajudou muito Alagoas”. Quando se pede a Ivanilda que cite alguma emenda relevante do senador Renan Calheiros, ela se cala. Passa alguns minutos sem falar nada. “Não sei, não”, diz, sem graça. Cutuca o filho com o braço. “Fala alguma aí, Remi”, diz a ele. Remi também responde que não se lembra. “São muitas”, afirma. Embora não citem exemplos, Renan é responsável por diversas emendas, entre elas algumas para a liberação de recursos para a construção do Canal do Sertão. A obra é investigada por desvio de verba.

Renan costumava aparecer ao menos uma vez por mês para comer o arroz com feijão da casa de Murici. Depois das denúncias não voltou mais à cidade natal. A última vez que a mãe o viu foi em setembro, no apartamento de Renan, em um prédio na orla de Maceió. “Era aniversário dele, mas não teve festa”, diz. Renan manda dinheiro para a mãe regularmente. Somente em 2006, ele declarou em seu Imposto de Renda ter dado a ela R$ 60 mil, entre pagamentos do arrendamento de sua parte nas terras da herança do pai e doações. As somas foram entregues pelo próprio Renan em cheques e dinheiro vivo, para pagamento de despesas. Ivanilda diz que o dinheiro e os cheques eram dele mesmo e, desconfiada, afirma não se lembrar quanto costuma receber mensalmente do filho. Renan liga para a mãe quase todos os dias, geralmente no fim da tarde. Nunca falou sobre o escândalo político que protagoniza. Ele apenas pergunta se ela tomou seus remédios para hipertensão e pede que fique calma. “Eu falo para ele não se preocupar, porque é inocente e vai conseguir provar isso”, diz Ivanilda. “Aí ele me responde: ‘Muito obrigado, mamãe’”.

Ivanilda se emociona diversas vezes. Nesses momentos é sempre acudida por alguém da casa que lhe pergunta se ela já tomou o remédio da pressão. Para Ivanilda, Renan não perderá o mandato nem renunciará. “Mas a senhora perdoaria um filho corrupto, dona Ivanilda?” Ela responde com um bordão: “Mãe é mãe. Ainda que tenha feito alguma coisa errada, ele vai continuar sendo o mesmo Renan de sempre”.

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG80023-6009-495,00.html

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